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"Pode parecer absurdo para quem publica na Web, mas eu escrevo à mão. Nunca foi arcaísmo, foi uma escolha madura. Comecei, claro, como todo mundo à mão, passei para o computador, escrevi anos nele, mas, de 2000 e pouco pra cá, achei que a máquina estava atravancando minha relação com o texto. O imperativo da forma, na tela do computador, me obrigava, por exemplo, a soltar todos os parágrafos iguais (todos do mesmo tamanho). Hoje, não; hoje sai como sai. Mais natural. Falar sobre escrever é quase como parar de respirar para explicar como é respirar... Não dá. Ou dá; mas é antinatural. Eu escrevo assim e pronto; nunca parei pra pensar. Mentira: parei, sim. O que um escritor (ou escrevinhador, meu caso) mais faz é pensar e repensar como faz. Eu, por exemplo, vivo achando que vai chegar uma época mais calma, em que vou poder trabalhar regularmente meus temas etc. – e produzir algo de válido. No limite, essa hora nunca chegará. Então precisamos começar logo. Outra preocupação, não medo, é tentar organizar a rotina para trabalhar mais. Já escrevi em todas as situações... Não sei qual é o meu melhor horário. Possivelmente de manhã. Mas passei muitos anos achando que fosse à tarde. As tardes são muito valiosas, em termos de trabalho, para desperdiçá-las escrevinhando... Como sempre me dividi entre atividades sérias e outras não tão sérias, não sei como seria se eu só escrevesse. Provavelmente não seria; porque eu não sei ser de outra forma. Isso se liga a uma crença que eu tenho muito arraigada. O escritor precisa ser outra coisa; e, não, só escritor. Precisa ter uma profissão; precisa ter outra atividade. Isso de escrever, só, é um problemão. Para mim, escrever é fuga, é evasão – e eu não concebo uma vida que seja só fuga, só evasão. Como é a de muitos escritores. Geralmente é a primeira frase que puxa as demais. No caso das notas curtas ou dos textos mais longos, são os títulos que vêm antes de tudo; e ficam rodando minha cabeça, às vezes, por semanas. Anoto quando chego a um título bom. E antes de começar, a escrever longo, anoto as idéias principais, em tópicos – para a massa não desandar. Não entrego nada que não esteja 100%. Pelo menos para o meu gosto. Ao contrário da vasta maioria das pessoas, não consigo publicar por publicar. Nunca fiz; tenho vergonha (Mais vergonha ainda se fizesse e ninguém percebesse.). Prometo que paro quando notar que preencho espaços à toa. Se fico entupido, me vem o mau-humor. E o dia perfeito, ou quase perfeito, é aquele em que eu consigo escrever alguma coisa".
Fonte: Depoimento em 5 de abril de 2007.
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