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Como escrevo?
Rubem Mauro Machado

"É sabido que cada escritor tem um processo diferente de criação, de elaboração. Eu até gosto de conversar isso com amigos escritores. Alguns trabalham o texto à medida que vão escrevendo, exaustivamente: escrevem uma página, reescrevem 20 vezes. Eu prefiro não me deter tanto ao longo do processo de criação, mas quando chego ao fim, gosto de retomar, dar um tempo, deixar esfriar aquele texto, para ganhar um certo distanciamento, retomo, trabalho aquilo. Meu romance foi escrito completamente duas vezes e teve uma terceira versão em algumas partes. Toda a criação tem algo de mágico. Se não houver isso, pode ser alguma coisa racional, mas não vai ser ficção, porque esta brota muito do inconsciente. A idéia do conto, da novela ou do romance surge num momento meio ilógico e é desencadeada pelos mais diferentes fatores. Às vezes uma frase que você ouve pode desencadear um conto, porque aquilo atinge um ponto sensível, te toca, é como se acendesse uma lâmpada. O interessante é que muitas vezes, as pessoas chegam e dizem: 'Ah, você é escritor, vou te contar uma história ótima que vai dar um conto'. e você não faz nada com aquilo. Você até reconhece que é uma história boa, mas não te serve, porque o escritor trabalha com os elementos do seu mais profundo eu, do seu inconsciente. O Dalton Trevisan diz que até uma bula de remédio pode virar um conto - e é verdade. É difícil explicar como nasce a idéia de um conto. De repente, sem estar pensando em nada, eu acordo com uma história inteira na cabeça. Um conto é um instante da verdade humana, no qual você tenta captar, e isso se apresenta para você das mais diferentes formas. Às vezes a história está no ar, mas você tem que ter a antena, a sensibilidade para captá-la. Esse instante em que brota a idéia é meio mágico, mas pode ser ilusório também: a gente tem uma idéia, depois vai ver que não era tão boa quanto parecia, e acaba esquecendo. Mas aquela idéia que fica martelando, que fica lá dentro, essa realmente é boa. Eu jamais anoto nada, porque acho que o que é realmente bom a gente não esquece".

RICCIARDI, Giovanni. Biografia e criação literária. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.

                          

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