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MEMORIAL DE OUTROS CONVENTOS:
UMA HOMENAGEM A JOSÉ SARAMAGO
Fernando de Moraes Gebra
Para Camila do Valle, com quem partilho ideais de justiça.
Atraiu-me na história do convento de Mafra o esforço de milhares de homens que trabalharam na construção de monumentos à vaidade de um rei e ao poder da Igreja (José Saramago. Memorial do convento)
Camila do Valle. Rosane Gazolla Alves Feitosa. Tania Sturzbecher de Barros. Virgínia Maria Gonçalves. Joaquim Carvalho da Silva. Anamaria Filizola. Irineu Choma. Dionizio Kohut Júnior. Eduarda da Matta. O que esses seis professores e esses três estudantes têm em comum? Com todos eles discuti ideias contidas nos romances, contos e peças de teatro de José Saramago, falecido na manhã de hoje, 18 de junho de 2010, aos oitenta e sete anos de idade. Com todas essas pessoas citadas e homenageadas no breve espaço deste ensaio discuti ideais de justiça e democracia, em tempos de crise, em época de instabilidade econômica, social e política.
Saramago é o fio condutor de todos esses diálogos, de todas essas práticas sócio-discursivas em que o autor deste texto foi construindo na relação com o Outro. Esse Outro, presente nas teorias de Jacques Lacan e Mikhail Bakthin, dentro das práticas sociais, é responsável pelas relações de construção identitária do eu. Segundo essas teorias, esse eu se percebe num mundo caótico, absorvendo (podendo questionar ou não) muitos discursos provenientes de várias esferas ideológicas.
Com Saramago e com esses interlocutores das Letras, pude me outrar, usando uma expressão tão cara a outro autor português, Fernando Pessoa (1888-1935), que por meio da criação de heterônimos, personalidades distintas com visões de mundo diferentes, pôde experimentar, por meio da linguagem, as múltiplas possibilidades de alteridade construídas na e pela própria linguagem. Com Saramago, nós nos outramos, colocamo-nos no lugar do outro, sobretudo do explorado economicamente. E por quê? Porque o explorado tem um pouco de nós, imersos numa sociedade globalizada que padroniza pessoas como o fazem as culturas dos fast food, dos MacDonalds, dos enlatados da televisão, que performatizam práticas ideológicas totalizadoras e discriminatórias.
Segundo Ana Colling (1), o poder que nos constitui enquanto cidadãos nasce outorgador da ordem, do sentido, do valor, da verdade. Esse poder, seguindo a linha de Michel Foucault, apresenta uma componente normativa, incitando-nos a agir conforme a ideologia dominante, e uma componente repressiva, que pune, nega e anula. O modelo burguês categoriza como centro o homem branco, heterossexual, entre trinta a quarenta anos, urbano, com posses. Fora desse paradigma está o outro, categoria com a qual a sociedade burguesa, tão legitimadora de práticas discursivas e ideológicas, tem muita dificuldade em lidar, preferindo excluí-lo. Esse Outro é interpretado por esse poder que constitui a estrutura da sociedade como desordem, sem sentido, sem valor e falsidade.
Quem é esse Outro? Nessa categoria ampla, incluem-se todas as identidades que fogem ao padrão do centro do poder. Temos as mulheres, os negros, os homossexuais, os idosos, os moradores dos bairros chamados de periferia, as comunidades tradicionais, os índios, enfim, aqueles a quem são, muitas vezes, negados o direito à voz e à participação no poder público. Claro está que a situação das mulheres não é a mesma no século XXI se compararmos com os anos que antecedem o movimento feminista dos anos sessenta, no entanto, sabemos que ainda persistem relações patriarcais na nossa sociedade burguesa, tão reprodutora de modelos consagrados.
É para esse Outro que Saramago dá a voz. Como materialista histórico convicto, Saramago adota, no processo de elaboração de seus romances, contos e peças de teatro, o processo de inversão do ponto de vista da História oficial. Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo no dia 16 de novembro de 1995 (2), o autor de Memorial do convento (1982) demonstra que, para ele, quem realmente fez História foi o povo que trabalhou na construção de monumentos, conforme podemos verificar na epígrafe deste ensaio.
Em artigo publicado na Revista Boletim, da Universidade Estadual de Londrina, em 2003, intitulado “A ideologia marxista em Memorial do convento de José Saramago”, de minha autoria, estudo a décima nona parte do romance (a obra não está dividida em capítulos) no que se refere às relações sócio-econômicas entre burguesia e proletariado e o ideário marxista que problematiza essas práticas exploratórias. Parti das contribuições de ensaístas da Nova História, como Jacques Le Goff e Peter Burke, defensores de nova corrente historiográfica surgida no final da década de 1920, marcada por uma variedade de novas abordagens, não mais restritivas à história dos grandes acontecimentos e não mais comprovada apenas por documentos oficiais.
Numa visão panorâmica da obra de José Saramago, costumo dividir sua obra em dois eixos fundamentais: textos de metaficção historiográfica (problematiza-se a História, a escrita literária e a escrita da própria História) e textos de realismo alegórico (criam-se alegorias, situações hipotéticas questionadoras de problemas humanos e existenciais). No primeiro eixo, embora haja também elementos do realismo fantástico e alegórico, costumo incluir os romances Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), História do cerco de Lisboa (1989), as peças de teatro “A noite” (1979) e “O que farei com este livro?” (1980). No segundo eixo, muito mais presente após a publicação do conto O conto da ilha desconhecida (1998), constam romances como Ensaio sobre a cegueira (1995), A caverna (2000), O homem duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004), Intermitências da morte (2005). Há também, se quisermos estabelecer um terceiro eixo, embora essa temática esteja presente nas demais obras, textos que versam sobre a dessacralização de assuntos religiosos, como o polêmico O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), a peça In Nomine Dei (1993) e o último romance intitulado Caim (2009).
Os três eixos dialogam entre si e, ao mesmo tempo em que questionam a escrita da História, o lugar do ser humano no mundo e os paradigmas da Igreja, têm em comum o questionamento do poder. Em “O que farei com este livro?”, conta-se a história da dificuldade de Luís de Camões em conseguir driblar o autoritarismo da Inquisição e a vaidade dos poderosos da monarquia da época de D. Sebastião, para publicar Os lusíadas, a obra que viria a ser o patrimônio cultural e identitário de Portugal. No plano do discurso, por detrás do périplo camoniano em obter a licença para publicação dos cantos das “armas e os barões assinalados” que “por mares nunca dantes navegados” foram “muito além da Taprobana” (3), está o discurso do autor-implícito, está o próprio Saramago, que por meio dos diálogos de Camões, Diogo do Couto e Damião de Góis, está a refletir sobre o papel do intelectual após a Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura salazarista.
A Nova História, além de propor um novo modelo historiográfico, se aproxima do pensamento marxista que via a História como um processo de antagonismos econômicos, em que o modo de produção material (infraestrutura) determina o caráter geral dos processos sociais e políticos, legais e espirituais da vida (superestrutura). O questionamento da escrita da História também aparece em Poética do pós-modernismo de Linda Hutcheon (4), que entende a História e a Literatura como construtos humanos, portanto, ambos teriam pretensão à verdade. Desloca-se, assim, a certeza da História como narrativa de grandes acontecimentos. A História não é mais a verdade, enquanto a Literatura, a ficção. Ambas são discursos, construídos por seres humanos, que partilham de ideologias, portanto, ambas apresentam pontos de vista possíveis de serem verdades.
Ao criar histórias que problematizam a própria História, o próprio discurso oficial do homem branco, europeu, heterossexual, urbano, com posses, ao contar histórias que mostram o outro lado do discurso oficial (tão centrado na história dos vencedores), Saramago dá voz aos silenciados pelo poder normativo e repressivo. Uma sociedade em que “o livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos” (5) , é o ideal de Saramago, como se percebe nessa importante reflexão do narrador de Memorial do convento: “Uma coisa é transportar a pedra para a varanda donde o patriarca, daqui por alguns anos, nos há-de abençoar a todos, outra e melhor seria sermos nós a benção e o abençoador, assim como semear o pão e comê-lo” (6).
Com a morte de Saramago, parece que perdemos um pouco dos nossos sonhos por uma sociedade mais justa e igualitária. Morre o autor, mas seu discurso permanece na sua obra, legado de uma importante trajetória estética e ideológica de um intelectual que, por meio de suas histórias, dá voz aos silenciados, posiciona-se criticamente em relação às estruturas sociais e políticas, questiona as ideologias totalitárias, advindas de regimes ditatoriais. Houve um Memorial do convento, como também poderia haver memoriais das instituições públicas, das instâncias do poder legislativo, executivo e judiciário.
Poderíamos questionar situações-limite de práticas autoritárias, pensando nas instituições públicas. Haveria muitos outros memoriais, muitas outras práticas discursivas identitárias que a Literatura, na esteira de José Saramago, poderia, no âmbito de sua criação ficcional, problematizar pontos de vista, questionar poderes, propor novas ordens de mundo, novas formas de vida.
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Fernando de Moraes Gebra é
Poeta, contista, ensaísta, Doutor em Estudos Literários pela UFPR, Membro da Associação dos Professores de Francês do Paraná e, atualmente, professor de Literatura Brasileira da UFPA.
Referência bibliográfica:
(1) COLLING, Ana. A construção histórica do feminino e do masculino. In: STREY, N. M., CABEDA, S. T. L., PREHN, D. R. Gênero e cultura: questões contemporâneas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
(2) REPORTAGEM LOCAL. Memorial faz crítica ao poder e à vaidade. Folha de São Paulo, 16 nov. 1995. Seção Especial A-5.
(3) CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. (Edição crítica de Francisco da Silveira Bueno). Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. (Prestígio).
(4) HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
(5) LÖWITH, Karl. Marx. In: ______. O sentido da história. Lisboa: Edições 70, 1991. p.43-65.
(6) SARAMAGO, José. Memorial do convento. 24.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
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