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Grandes entrevistas

Alain Robbe-Grillet

Entrevista realzada por Juremir Machado da Silva, publicada no site http://zelmar.blogspot.com.br em 16/05/2013.

 
JMS – Ser o presidente do júri do Festival Internacional de Gramado é uma tarefa capaz de emocioná-lo?

Alain Robbe-Grillet – Claro, pois sempre penso que um festival oferece a oportunidade de ver filmes diferentes, criativos, livres da obrigação comercial, do compromisso com o grande público e com a vulgaridade. Eu aceito esse tipo de convite por acreditar na novidade. Evidentemente não é a primeira vez que presido um festival: já o fiz em Veneza. Estive no festival de Copacabana, em 1969, que teve a presidência de Josef Sternberg.


- O Rio de Janeiro ainda encanta um estrangeiro?

Alain Robbe-Grillet – Desde a última vez que estive no Brasil, em 1977, o Rio de Janeiro está mais feio. Há uma confusão arquitetônica. Predomina a incoerência. Isso me toca mais do que a tão comentada violência.


- A mercantilização da arte e a futilidade do mundo contemporâneo parecem estar cada vez mais no centro de suas preocupações. O senhor teme a vitória da mediocridade?

Alain Robbe-Grillet – Não sou sociólogo e, portanto, não sei se existe uma doença roendo as sociedades contemporâneas. Constato apenas que a leveza e a mercantilização, que são coisas muito diferentes, determinam a produção artística. Os criadores estão preocupados com o sucesso, com o resultado, com a venda e, logo, com a satisfação dos interesses imediatos dos consumidores.


- No campo literário, o senhor ajudou a inventar o Novo Romance, criou a Nova Autobiografia e continua a ser um escritor peculiar. Não lhe passou pela cabeça o desejo de fazer a experiência da crítica?

Alain Robbe-Grillet – Nunca. Comentei alguns livros que me interessaram muito. Nada mais. A crítica no poder, essa que existe nos grandes jornais, é medíocre e quando leio Le Monde e outros diários franceses, deixo de lado os cadernos literários. Eu sou um artista e interesso-me somente pela minha arte. A tarefa da crítica consiste em se opor ao original, em reagir ao novo com os padrões de passado, defendendo o imobilismo e confirmando o gosto instituído. Os novos romancistas, já lhe disse, escrevem porque não compreendem as suas relações com o mundo. Por não conseguirem responder a duas questões – quem sou eu? e que faço eu aqui? -, os novos romancistas continuam a escrever. Balzac escrevia porque ele compreendia. A Nova Autobiografia revela o desconhecimento que o autor/personagem tem de si mesmo. É o desconhecido, o não-sabido, que interessa.


- O papel da crítica, portanto, é a condenação da novidade?

Alain Robbe-Grillet – Com certeza. Mas falo da crítica que está no poder, a crítica da mídia. O trabalho dos universitários é melhor, embora sempre haja de tudo em qualquer meio intelectual. A natureza da crítica voltada para o grande público, caso da que é publicada pela imprensa, impede o exame aprofundado e o reconhecimento daquilo que choca. Os jornais querem vender e precisam contentar os consumidores. Por isso, limitam-se ao estabelecido e fogem à contestação.


- Afirma-se em geral que as páginas literárias dos jornais interessam a poucos. Não há uma contradição?

Alain Robbe-Grillet – Eles se fazem cada vez mais raros e, atemorizados com a perspectiva do desaparecimento, aumentam as concessões e acabam destituídos de importância e criticidade. Servem, como já salientei, para condenar todas as inovações.


– Não é possível a existência da crítica aberta às revoluções formais?

Alain Robbe-Grillet – Sim, ela é possível, mas não na mídia. A Nova Crítica de Maurice Blanchot, Roland Barthes, Gérard Genette, etc., conseguiu conectar-se à força do radicalmente diferente, do violentamente novo e à ruptura com a inércia dos cânones.


- A crítica de jornal está  condenado ao simplismo?

Alain Robbe-Grillet - Nunca vi uma que fosse diferente. Enquanto a mercadoria tiver todos os privilégios, o simplismo predominará.


- O senhor veio ao Brasil para acompanhar uma retrospectiva de seus filmes no Rio de Janeiro e participar da exposição em homenagem a Roland Barthes. O interesse por Barthes permanece entre os leitores?

Alain Robbe-Grillet – O importante a dizer é justamente isso: Barthes nunca foi lido pela maioria, mas continua vivo para as minorias leitoras que souberam ver um nele um mestre, um escritor capaz de conceber textos monumentais que guardo na memória.


- O panaroma literário de seu país, a França, é visto por muitos especialistas como em crise. Existem grandes escritores franceses na atualidade?

Alain Robbe-Grillet – A França tem ainda bons escritores. Sinto, no entanto, que há uma crise, uma perda de ânimo. Os grandes certamente não estão na Academia Francesa e eu mesmo sempre recusei entrar nessa instituição. O trabalho do artista é solitário, embora não infeliz, e parece ter sofrido um desgaste dos anos 60 aos nossos dias. Os imperativos do mercado são cada vez mais fortes e acaba por valer a lei da satisfação fácil dos gostos do leitor.


- O escritor não deve jamais pensar no leitor?

Alain Robbe-Grillet – Claro que não. O escritor é um artista e deve pensar exclusivamente na sua arte. Se Van Gogh tivesse se preocupado com o público não teria realizado a sua pintura maravilhosa. Quando Beethoven compunha, de maneira original, muitos debocham afirmando que a sua música era como era por ser produzida por um surdo. A arte é autônoma, comprometida apenas com a criação. Sempre detestei a idéia de arte engajada. Nunca pus idéias nos meus livros, que trabalham com formas, levando o leitor à reflexão.


- O senhor fala em esgotamento das energias criativas e em perda da crença no poder do texto. Por quê?

Alain Robbe-Grillet - Não sei qual é a explicação. Creio que os escritores perderam a fé no poder da literatura. As energias esgotaram-se, o que talvez tenha a ver com a crise das utopias, não sei. Vejo apenas que nos anos 50 e 60 havia uma pulsação, uma entrega. Duras, Sarraute, Claude Simon e eu, por exemplo, nunca pensamos em ganhar dinheiro com literatura. Trabalhávamos impulsionados pela paixão artística. Na atualidade, estou convencido de que não é assim.


– A literatura ainda é capaz de gerar escândalos?

Alain Robbe-Grillet – A literatura deve surpreender. Cada vez é mais, porém, escandalizar, pois o amordaçamento predomina. O escândalo origina-se do choque gerado pelo novo. Muito me criticaram, e ao Novo Romance, em função da ruptura provocada. Sempre fiquei feliz com os escândalos, as críticas e todos os tipos de reação.


- Qual o valor do escândalo na arte?

Alain Robbe-Grillet – O escândalo é fundamental e significa a descontinuidade, a fratura, o embate entre o velho e o novo. Mesmo Jesus declarou que vinha para trazer o escândalo aos homens.


– O senhor espera que o Festival de Gramado apresente algum escândalo cinematográfico?

Alain Robbe-Grillet – Sempre espero ver filmes diferentes, livres, experimentais, sedentos de originalidade.


- O que senhor conhece do cinema brasileiro ou latino-americano?

Alain Robbe-Grillet – Muito pouca coisa. Mas estou curioso, com muita expectativa em relação ao que irei encontrar.


- O senhor não costuma esconder o que pensa. Em Berlim, depois de ver A Isca , de Bertrand Tavernier, que acabou premiado com o Urso de Ouro, a sua reação foi de desprezo.

Alain Robbe-Grillet – Esse filme é muito ruim. Um horror. Manifestei o meu sentimento. Nada mais.

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