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Entrevistas

  

                  Luci Collin

Entrevista conduzida por Isabel Furini, colunista do blog "Falando de Literatura (www.bonde.com.br) e publicada em 28 de abril de 2011.

Apresentação: Nesta oportunidade entrevistamos a Dra. Luci Collin, ela fez Pós-Doutorado na USP sobre a poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin. Luci Collin é uma das escritoras mais destacadas do panorama literário paranaense. Seus trabalhos já foram premiados em vários paises.

- Quando surgiu sua paixão pelos livros?

Aprendi a ler aos quatro anos de idade, indiretamente motivada pela minha mãe, professora de escola primária, que trazia para casa material de alfabetização que eu bisbilhotava... O primeiro livro que eu "li" foi do Jorge Amado, que eu folheava escondido; claro que eu não compreendia nada do conteúdo, mas me recordo vividamente que a formação de frases a partir das pequenas unidades autônomas - que eram as palavras - me encantou. Irreversivelmente. Revistas e livros passaram a representar grande possibilidade de emoção. Iniciei uma relação visceral com os livros que não se interrompeu até hoje. Na adolescência, li compulsivamente – o que caísse na rede... de Sidney Sheldon a Nietzsche, de Harold Robbins a Voltaire, de fotonovelas a Machado de Assis, de A Família Cristã a Cecília Meireles.

- Pode citar seus livros preferidos?

Entre os livros que me marcaram durante minha formação como leitora, de imediato me lembro de: Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, Édipo Rei, de Sófocles, Passeio ao Farol, de Virginia Woolf, O Ciúme, de Alain Robbe-Grillet, Volta ao Lar, de Harold Pinter, Morte em Veneza, de Thomas Mann e Avalovara, de Osman Lins. E também muito Balzac, Flaubert, Nelson Rodrigues, D. H. Lawrence, Bilac, Yourcenar e Ionesco. Outros vieram, mas os autores primeiros continuam pulsantes. 

- Você acha que o poeta nasce ou ele se faz?

Acredito na combinação muito consciente destes dois fatores. Reconhecer que se tem um talento artístico implica diretamente reconhecer um sério compromisso com um aperfeiçoar contínuo de potencialidades. Na escrita isto representa não apenas uma profunda dedicação à leitura e ao labor da feitura do texto; acima de tudo, representa um comprometimento em tentar desenvolver uma percepção mais íntima das coisas do mundo e das coisas da vida, ouvir e ver com intensidade maior, e depois buscar a palavra - muitas vezes recôndita - que recuperará a emoção do visto, do ouvido, do sentido e do intuído.

- Você tem projeção internacional, sejamos honestos, é uma das poucas poetas no Paraná com projeção internacional. Por que é tão difícil ter projeção como poeta?

A poesia demanda um envolvimento diferente do leitor, uma comunhão mais íntima com o texto, uma vez que a linguagem poética é, não contraditoriamente, diluída e condensada ao mesmo tempo. Assim, pelas implicações que os elementos da poesia trazem à leitura, talvez este seja um gênero menos procurado ou menos valorizado comercialmente; daí a dificuldade que você menciona, mas que é compensada pela preciosidade das emoções que a poesia nos oferece.

- .No mundo das letras, os homens têm melhor recepção do que as mulheres ou o sexo é indiferente quando se fala de conto, romance e poesia?

Numericamente há ainda mais publicações de autores homens do que de mulheres. Antologias, de poesia ou conto, são um exemplo disto – sempre trazem mais nomes masculinos. E esse fenômeno, infelizmente, não se restringe ao Brasil, está replicado em muitos países, inclusive nos desenvolvidos. Também a história social da mulher reforça um tipo de apagamento ao longo dos séculos – mas o cenário muda, gradualmente. Não se justificará, algum dia, esta prevalência baseada no sexo do autor. Enquanto isto, seguimos todos escrevendo, indiferentes aos gêneros, literários ou não.

- Alguns falam que poesia tem mais autores que leitores. Qual é sua opinião?

Não me parece muito relevante o número de leitores e sim a qualidade da leitura. Muitos fenômenos de venda sacodem o mercado, de tempos em tempos e, na verdade, as perguntas que permanecem são: compraram e leram o livro ou apenas compraram? E que tipo de leitura foi? Assim, os leitores de poesia, quem deliberadamente busca/enfrenta esta relação com o texto poético, é quase sempre um bom leitor – porque espera encontrar a emoção da linguagem codizada, concisa, simbólica, rítmica e melódica. Esse será sempre um bom leitor. Aí não importam muito as estatísticas numéricas: menos, aqui, é mais. (Viva o leitor de poesia!).

- James Joyce foi criticado por Virginia Woolf e hoje o Ulisses é considerado o melhor romance do século XX, como saber se autores hoje desprezados poderão ser considerados revolucionários no futuro?

Esse desejo de eternidade, de escrever a obra duradoura carece de readaptação no mundo contemporâneo, cuja característica maior é, justamente, a velocidade das mudanças e a rápida substituição de valores. O próprio Saramago, ao receber o Nobel, questionou o impacto de uma obra no tempo (como ele é tomado por nós, humanos) quando a duração desta mesma obra  é comparada ao tempo com que se mede a evolução das estrelas. Todavia, se alguns autores são revolucionários, se apresentam uma linguagem e uma expressão que de fato ainda não é compreendida em sua totalidade pelo público do momento, com o tempo seus textos encontrarão espaço. Não importa muito se o autor estará vivo ou não – o bom texto sobrevive. Eu não acredito muito nisto de "gênio desprezado" – me parece  um resquício de nossas tendências idealizadoras que tipificam o romantismo literário. Hoje há muitas maneiras de se fazer circular o texto. Poderia ter algumas dificuldades mas, dificilmente um grande "gênio" passaria despercebido.

- O panorama literário parece confuso. Em sua opinião, para onde vai a literatura?...

Sou otimista e acredito que a literatura tenha um futuro muito importante no cenário da expressão artística de modo geral. Embora a literatura viva um momento de grande e indiscriminada circulação de obras, as formas de comunicação virtuais contam muito para este futuro da produção literária. Estamos ainda nos familiarizando com as novas formas de encontrar/disseminar o texto e isto requer um tempo para o assentamento, a decantação dos novos processos.  O panorama literário é confuso, é ditado por parâmetros muito mais mercadológicos do que estéticos, há publicação de muito livro de conteúdo frágil, mas o trigo lá está em meio ao joio - a literatura que é arte sobrevive bem, não há como abafar nem emoção nem recepção estéticas: é, em grande medida, disto que sobrevivem as melhores partes de todos nós. 

- Que conselho pode dar aos novos escritores?

Frequente muito não só a literatura, mas todas as outras linguagens, todos os outros discursos  artísticos. Descubra vozes poéticas, descubra o que são e de quem. Invista nesta experiência em profundidade. Mergulhe fundo, compare, confronte, estabeleça relações, critique, divirta-se, se emocione. Escreva muito; pratique seu ofício. Investigue sua voz e intenção poéticas. Aos poucos construa, via linguagem, a expressão íntima  das emoções que sente e daquelas que gostaria de sentir; a expressão do que vive e do que gostaria muito de viver. Ou não. Acabe por perceber que só existem desaconselhos – mas isto sempre depois de uma trajetória consciente e própria.

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LUCI COLLIN (Curitiba, PR), graduada no Curso Superior de Piano, no Curso de Letras Português/Inglês e no Curso Superior de Percussão Clássica, fez Mestrado na UFPR sobre o poeta norte-americano Gary Snyder, Doutorado na USP sobre os retratos literários de Gertrude Stein, e Pós-Doutorado na USP sobre a poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin.  Como poeta e ficcionista tem 11 livros publicados: Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e azuis (1992), Poesia reunida (1996), Todo implícito (1998), Lição invisível (1997), Precioso impreciso (2001), Inescritos (2004), Vozes num divertimento (2008) e Acasos pensados (2008). Recebeu premiações em concursos de literatura no Brasil e nos EUA; também participou de antologias nacionais, como Geração 90 – os transgressores (2002) e 25 Mulheres que estão fazendo a literatura brasileira (2004), e internacionais (EUA, Alemanha, Uruguai, Argentina e Peru). Publicou traduções de Gary Snyder, Gertrude Stein, Jerome Rothenberg, Vachel Lindsey e Eiléan Ní Chuilleanáin, entre outros. Leciona Literaturas de Língua Inglesa e Tradução Literária na UFPR.

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