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Grandes entrevistas

Dyonélio Machado

Entrevista conduzida por J. Monserrat Filho, publicada no jornal A Hora, de Porto Alegre, em 10/09/1956.

Iniciamos a entrevista perguntando a Dyonélio como tinha começado a sua carreira literária. Sua resposta foi ciclópica e refletiu um saudosismo incontido:

- Se eu lhe respondesse que foi em 1927, com o aparecimento do meu primeiro livro de ficção, Um Pobre Homem, não estaria sendo rigorosamente exato. Já em 1913 ou 1914, em colaboração com Celestino Prunes, eu, daqui de Porto Alegre, mandava as minhas primeiras crônicas para a “Gazeta de Alegrete”, o mais velho órgão da imprensa rio-grandense. Tinha menos de 20 anos. Foi esse, realmente, o período mais intensamente “literário” que já vivi. Éramos um grupo, cujo perambular errante pela Praça da Harmonia… Éramos praticamente contemporâneos do Naturalismo, do Simbolismo. Os canhões troavam na maior guerra que a humanidade até então se empenhara – a primeira guerra mundial. Já surgira o cinema, o automóvel. Nossos olhos, porém, estavam voltados para as grandes construções que, no terreno da literatura e da arte, haviam erguido obreiros como Flaubert, Zola, Anatole France, Dickens, Baudelaire, Verlaine, D’Annunzio, e, em língua portuguesa, Eça de Queirós, Gonzaga Duque, Cruz e Souza, Paulo Barreto. Misture você tudo isso, aqueça ao calor duma mocidade entusiasta e sonhadora. Terá assim, não só a decifração de nossa formação literária, como um dos característicos da minha geração.

“Aos dezenove anos já tinhamos uma experiência literária”

- Eu havia chegado aqui, vindo de uma pequena cidade da fronteira, com pouco mais de dezesseis anos. Antes dos vinte já vivia uma “vida literária”. Porque caíra acidentalmente numa roda de intelectuais? Ou porque a literatura empolgava então? Não sei responder. Parece que o livro, numa época em que o esporte constituía uma exceção e quase que só era praticado por estrangeiros, canalizava uma boa parte das tendências esportivas da mocidade. O ensino mesmo, sem o caráter técnico do de agora e girando quase que exclusivamente em torno do que se chamava “humanidade”, favorecia o culto das letras. O que é certo é que nós, aos dezenove anos, já havíamos acumulado uma experiência literária, de tal forma rica, que os anos subsequentes não a aumentaram de maneira substancial, apenas a atualizaram.

“Que os novos não desiludam, pelo engôdo de uma glória fácil”

- Com satisfação verifico que os jovens estão novamente se movimentando. Há pouco menos de dois anos fui igualmente ouvido pela HORA. Tive que admitir, para não fugir da dura verdade, que a literatura entre nós estava morta. O sinal mais evidente era que a mocidade se achava calada. E a renovação na literatura e na arte sempre foi obra da mocidade. Dizia também outras coisas, e num tom polemístico por sinal... Pois bem, você mal pode imaginar o volume de “adesões” que recebi. Tocara um ponto sensível. Ninguém, no nosso meio, quer que a literatura morra. É desse anseio, como duma semente, que há se surgir o movimento literário das novas gerações rio-grandenses, como há tanto tempo estamos esperando. O momento, num certo sentido, é propício: o público ledor já dá demonstrações de enfastiamento diante da falsa literatura que lhe vêm impingindo como verdadeira. Que os novos atentem para esse momento psicológico e não desiludam pelo engodo de uma glória fácil, todos quantos esperam deles apenas a naturalidade, a oportunidade, a sinceridade, a independência, – qualidades privativas de quem é moço e que são, também, as qualidades máximas da arte. Se algum conselho eu tivesse o direito de dar aos jovens, esse seria o meu orgulho.

“A vida precisa ser vivida com indiferença”

- A grande lição que recebi da vida é que ela precisa ser vivida com uma enorme dose de indiferença. Indiferença diante do triunfos, sempre tão poucos, como diante das frustrações, que tanto avultam, mesmo na mais obscura das vidas.

“O alto preço do papel criou formas de tirania”

Indagamos a Dyonélio o que, a seu ver, mais faltava ao mundo intelectual. A sua resposta foi um tiro.

- Papel barato.

Tivemos que rir…

- Não ria. O alto preço do papel criou as mais variadas formas de tirania. Tirania do grande público leitor, pois que é preciso lisonjear os seus gostos para conseguir edições populares ou comerciais; tirania oficial, visto que as instituições governamentais que promovem a difusão do livro, não auxiliam autores que não rezem pela cartilha estreita dos que, na ocasião, detém o poder. Não é difícil profetizar qual o destino da literatura brasileira, se esse estado de coisas perdurar por muito tempo ainda.

Como encarar a literatura?

- Encaro a literatura como o produto espontâneo e fatal duma época. É tolice querer dar-lhe moldes. Ela há de representar sempre o trabalho mais ou menos inconsciente da sublimação dos nossos conflitos… De qualquer maneira, um processo de adaptação à realidade presente ou futura, mesmo quando pareça insurgir-se contra ela.

“Os melhores romances são meras reportagens”

- Acho que a literatura brasileira se encontra em decadência. Veja o romance: os melhores são meras reportagens. Isso não é arte. Arte não é a transplantação da natureza para o livro por simples decalque. A natureza deve passar por um processo ativo dentro do escritor. Só assim ela se torna arte “real”, e mais “emocional”…

Literatura Gaúcha

- Acho que a literatura regional é, no que toca à rio-grandense, uma das melhores afirmações artísticas. Ainda há pouco tivemos uma prova disso com o aparecimento do último romance de Cyro Martins, Estrada Nova. E o público corresponde a esse esforço, exigindo sempre novas edições dos nossos regionalistas.

Preferências literárias

- Uma vez perguntei ao Álvaro Moreira por que se continuava escrevendo depois de Homero. O velho rapsodo levou a literatura ao seu nível máximo: daí em diante ela não fez senão descer. Mesmo assim, eu tenho outras preferências literárias. Por exemplo: Balzac, Dickens, Dostoievski, Baudelaire, João do Rio e muitos modernos.

Considera-se um escritor realizado?

- Eis uma pergunta que ficaria melhor dirigida ao leitor.

Para finalizar pedimos a Dyonélio que adiantasse alguma coisa sobre seu último livro. Respondeu:

- Deuses Econômicos se trata dum romance, cuja ação se passa no ano 64 de nossa era, em pleno reinado de Nero. Um romance histórico? Bem, pela mais restrita observância da verdade histórica, quer nos fatos, quer nos costumes, ele poderia ser encarado assim. E acreditem-me, não foi sempre fácil esta reconstituição. Um romance exige detalhes, esses detalhes mínimos de que a vida se compõe. Tudo isto demandou de um grande esforço, num trabalho exaustivo de pesquisa, de que eu apenas convalesço. Mas, como eu já tive oportunidade de assinalar, o meu livro não constitui um romance histórico. Não pretende romancear a história…

        X.X.X.

 

Entrevista conduzida por Remy Gorga Filho, publicada no Jornal do Brasil, em 07/10/1972.

Dyonélio Machado, 77 anos, médico e escritor. Nasceu em Quaraí, fronteira com a Argentina, sede de um regimento de cavalaria, berço de revoluções e revolucionários, onde morreu Saldanha da Gama. É autor de Os Ratos, 1935. Prêmio Machado de Assis do ano, novela perfeita, acabada, obra clássica da segunda geração modernista, segundo Eliane Zagury. Gestos largos, o sotaque áspero dos que nasceram na campanha rio-grandense, os braços abertos como em permanente abraço, um modo penetrante de olhar e permanecer nos olhos do interlocutor, esse homem (revisando o que foi e o que fez) é capaz de dizer que veio do século XIX, que é um valetudinário, o romancista de um romance só, um espadachim, um sonhador. Que por causa daquele seu famoso e solitário romance pode até viver de uma ociosidade classicamente horaciana. Se se disser tudo isto a um jovem, a dimensão do escritor e da obra não estará acrescida. Tanto um quanto a outra se perderam na província e na distância. E com o tempo. A província – de onde vem – é quase o silêncio para quem escreve. A distância, o silêncio e o tempo se completam. Hoje, muita gente se surpreende ao saber que Dyonélio Machado é um escritor em atividade.

- A minha estreia no romance se fez com Os Ratos (1), premiado em chave com outros romances. Mas, virtualmente decorridos quase 40 anos, a despeito de novos trabalhos do gênero, não passei desse livro de estreia – sempre lembrado.

O escritor fala com franqueza de sua obra mais conhecida. O homem aparece inteiro, com a largueza dos seus gestos. Nenhuma queixa, nenhuma amargura:

- Ele constituiu tema de estudos críticos e de estudos universitários, mereceu reedições. Se ocorre aparecer outra coisa minha, aquele que a notícia ou dela se ocupa não deixa de o mencionar. Em suma: demonstrou uma vitalidade que altamente me desvanece. E também colocou a mim numa posição ideal: sou o romancista de um romance só. Pra que, pois, gastar as gemas dos dedos no teclado da portátil, fazendo mais livros, quando tenho nesse pequeno volume – pouco mais que uma plaqueta – a fonte de uma ociosidade classicamente horaciana?

Há casos semelhantes na literatura. Existem até poetas de um poema só. Mesmo no Brasil: o poeta dos Dois Cisnes, um dos quais, parece está fadado a morrer. O poeta daquele lenço que, no rompimento do namoro, ele devolve à ingrata, mandando-o pelo ar, inflado, pando, côncavo de beijos. O poeta da Cegonha, plácida e Solitária. O poeta das Duas Almas. Dyonélio Machado e seu livro voltam à cogitação crítica ao estudo universitário. Eliane Zagury propôs um reexame crítico da obra que definiu como clássica do Modernismo brasileiro (2). E traçou um paralelo entre Os Ratos e a obra de Graciliano Ramos: “Tal como Graciliano Ramos, conseguiu Dyonélio Machado escapar às tentações do esquematismo social graças ao aprofundamento psicológico”. O mal e o tamanho da glória. Quero que me fale mais de Os Ratos, da ociosidade que proclama diante da glória que conquistou muito cedo. Quero que me diga se lhe faz muito mal tudo isto.

- O fato é que tamanha glória resulta num mal. Cria mesmo a ociosidade. Primeiro da crítica, que se desembaraça da tarefa que o ofício lhe impõe, com uma simples referência – de resto, sovada já. Depois, do leitor, que se nutre do autor recomendando apenas perpassando algumas das suas páginas. Quem sabe mesmo se não atinge o próprio escrevinhador, que, melancolicamente, acaba aderindo a essa façanha da lei do menor esforço e com o tempo passa a ser, aos olhos alheios e aos seus próprios, um ente inútil e ridículo. Olhe, eu devo ter algo daquela perseveração infantil do espadachim: porque me bato, me bato, longe de qualquer possibilidade de êxito.

E justifica-se como espadachim perseverante:

- Quer saber de uma coisa? Pus-me a escrever um dos meus romances – Deuses Econômicos – em francês. Quando, na antevisão de uma vaga promessa de edição no Brasil, comecei a traduzi-lo para nossa língua, não encontrei no português a versão de muita coisa que, ingenuamente, eu achava que estava tão boa no francês.

Bem-humorado. Peço-lhe dados biográficos. É inevitável.

- Você me fala em dados biográficos? As biografias mais sucintas – com poucos dados, logo – são as que mais valem, por porem em relevo os únicos aspectos que importam. Você conhece a de Ramalho Ortigão, traçada por Eça de Queirós: Não é bacharel e tem saúde. Juízo de um valetudinário (isso eu sou também) a lutar contra uma condição que tanto pesou sobre a sua grande obra, deixando-a infelizmente incompleta.

Um século agitado por ideais.Reafirmo-lhe que é inevitável – preciso que diga alguma coisa sobre o que foi e o que fez.

- Venho do século XIX (fiz 77 anos há poucos anos). Venho de um século convulsionado por ideais, visando ao aperfeiçoamento da espécie humana, abrindo-lhe perspectivas cada vez mais amplas e arrojadas. Não admira que me fizesse médico, quando foi nele que a Medicina começou mesmo a ser uma ciência de aplicação social. Desse vasto campo, quantas vivências, indo do trivial ao dramático, sem todavia  deixar de oferecer uns traços do pitoresco,  guardei comigo.

Dyonélio Machado é médico psiquiatra, dedicou toda a sua vida de médico a tratar de doenças mentais.

- Claro: um pitoresco que nem sempre convida ao riso e à alegria, mas leva antes à desolação e à angústia. Cobrindo tudo isso, como fruto da juventude, custoso de parecer, uma ilusão: a da literatura e da arte. Tratando-se de um pobre homem, será preciso acrescentar mais alguma coisa?

Vale a pena perguntar sobre sua experiência jornalística?

- A minha experiência jornalística tomou várias formas, sem nunca assumir o caráter de uma profissão. Quando guri, era o jornalzinho manuscrito, invariavelmente crítico e literário. Não ria. Para o primeiro termo do binômio, havia o próprio guri, para a parte literária, um tio escrivão, um amigo farmacêutico, o pai de um de nós. Menos o meu, que teve morte repentina aos 33 anos de idade e me deixou (eu, o filho mais velho) apenas com sete. Com os filhos de antigo militar (a minha terra, Quaraí, cidade de fronteira, sempre contou com um regimento de Cavalaria) e a supervisão do magnânimo major reformado, montamos uma tipografia, com tipos do mesmo corpo, mas de caracteres diferentes, o que dava sempre ao jornal um aspecto de malfeito. A impressora era usada pelo comércio como copiadora da correspondência. O jornal tinha um título que bem traduzia a finalidade a que se propunha: “O Martelo”.

No fundo, a paisagem rio-grandense. E Quaraí, por um momento, se reflete na largueza do seu gesto.

- É no simples trecho da campanha rio-grandense, plano e coberto de grama, onde sempre há rebanhos a pastar. Mas se eu disser que foi ali que morreu Saldanha da Gama, ele muda de figura. Do jornalzinho da infância e por obra do ambiente, subi para a imprensa política, para a revista literária, para o grande jornal, da província e daqui do Rio, onde trabalhei ou que temporariamente dirigi. Como se a fatalidade quisesse ligar os elos, agora que chego ao limiar dos 80 anos, o último periódico que abriga a minha produção literária e também, um pequeno jornal, de feitura amadorística, órgão de um clube de mães de um dos arrabaldes de Porto Alegre. “O Além do Cri-Cri”, um nome formidável das preocupações com crianças e criadas.

Voltamos a falar de livros.

- Eu me lancei a falar sobre meu romance de estreia antes mesmo de você me questionar sobre o que quer que fosse. Agora quero dizer alguma coisa sobre um problema muito importante. O problema editorial. A coisa é séria, porque, atingindo indiscriminadamente a cada um da forma como se processa, em pouco tempo atingirá boa parte da produção cultural do nosso país. Eu não me iludo: tive editor para o meu primeiro romance pela circunstância de ele ter merecido um prêmio cobiçado – coisa decisiva – ter tido um editor não, por força das condições mesmas do concurso, que obrigava a casa lançadora da competição a publicar os livros premiados... Chega-se, assim, a uma questão: como editar? Lendo o livro? Fazendo ler o livro? Dando para a filha, para o filho, para a esposa, para o vizinho ler? Mas – dirão – onde encontrar tempo para isso? O editor tem pressa, seu capital não se pode imobilizar nem por um segundo sequer. Bom, então o próprio escritor deverá montar uma casa editora. Foi o que fez Balzac, e se endividou por toda a vida. Foi o que fez Monteiro Lobato, sem maior êxito... O caso, porém, é que há a associação. O que um não pode fazer, o todo pode. Meu caso pessoal é meio divertido: eu tenho e não tenho editor. Talvez pudesse regularizar a coisa, tendo editor sempre (como vejo com muitos) eu não tendo editor, definitivamente. Mas estou velho – na vida e na arte... Minha estreia na ficção (um livro de contos) tem mais de 45 anos. Por mais que me possam negar, adquiri direitos, senão de merecimento, pelo menos de antiguidade, em matéria de literatura na minha pátria. Não hei de assistir, comodisticamente de braços cruzados, a depreciação e até a estagnação da literatura brasileira, porque outros interesses, embora legítimos na esfera da troca, assumem a primazia, numa matéria, como a cultura, em que só o gênio criador devia imperar... Coisa engraçada vem se passando comigo e com os meus livros. Críticos, jornalistas, professores, autores de trabalhos sobre a história da literatura, dicionaristas, simples leitores surpreendem-se quando topam com qualquer informação dando-me como um escritor em atividade. Julgavam que eu não escrevia mais. A memória – pelo menos para literatura – está bem curta entre nós. E isso prova que não há vida literária no Brasil. Vida pressupõe certo remanso na corrente do tempo. A corrente, só, desgastaria, não capitalizaria. O que nós temos na atualidade é um fluxo em cascatas, valendo apenas a cascata do momento, reduzindo-se as anteriores em meras águas servidas… Pungente, essa desagregação. Pobre homem da cidade

Quero que fale dos seus livros, dos publicados e dos inéditos...

- Não resta dúvidas de que muito amigo meu ou muita gente que, por um motivo ou outro, tem alguma simpatia por mim, vai se mostrar o seu talento perplexa com a relação dos meus livros. Você a está pedindo, ei-la: Política Contemporânea, uma plaqueta aparecida em 1923; Um Pobre Homem, meu primeiro trabalho de ficção, é de 1927 e são contos... Depois de Um Pobre Homem vem Os Ratos, como é sabido, em 1935. Segue-se um período difícil para a produção literária: eu já me encontrava preso (creio que também fui pioneiro nisso) quando ele apareceu. Como habitualmente me achava sob o regime da incomunicabilidade, acompanhei mal o efeito dessa minha tentativa do romance. Coisa ruim é estar na cadeia, com a vida lá fora tremendamente encurtada, por ser vista através das grades. Menos de meia dúzia de anos depois, do fundo de uma cama de doente, comecei a ditar à minha esposa O Louco do Cati... Enorme decepção: agradou ao leitor. Agradou – e ainda está agradando – aos poetas, aos poetas de todo o gênero. Agradou à minha filha, que venceu um bobo pudor literário e, tempos depois, me remeteu uma carta, improvisada, saída ao correr da esferográfica, e que há de ser o prefácio de uma segunda edição. Mas a crítica achou-o execrável. Seguiram-se Desolação, Passos Perdidos. Para um escritor não vinculado profissionalmente à sua arte, ele só contrai compromissos de trabalho consigo próprio. Ou melhor: com o seu sonho... Foi de 44/45 – data dos meus últimos romances – até 54, que concebi uma ideia cujas dimensões, além de a tornarem irrealizável, assumiam um caráter de idolátrica ambição. Veja você: não era outra coisa senão apanhar no ar que respiramos os elementos primários de um certo tipo de sincretismo e com eles mandar para uma nova renascença... Levei uns 10 anos nisso. Reli tudo o que a minha curiosidade pela antiguidade clássica me levara a devorar desde a juventude. Li muito mais, muito mais coisas. Encomendei livros. Revisei meu latim provinciano. Pus-me a decifrar (é o termo) o grego, num texto sem tradução ajudado pela gramática e o dicionário – ambos ofertados. Tudo isso no empenho de reconstituir o passado. Minto: poucas semanas do passado – de reconstituí-las com a maior exatidão possível, apenas para sobre elas, como sobre uma esplanada de torneio, movimentar os meus figurantes... Em 1954 essa primeira tarefa estava terminada. Parti para a continuação, que era um segundo volume, e que foi concluído, também já dei-lhes nomes: Deuses Econômicos, o primeiro e Sol Subterrâneo, o segundo... Quando pude respirar, iniciei uma série que intitulei Os Flagelantes. São romances de costumes. Desses se acham prontos, revisados, datilografados dois volumes. O primeiro já tem nome: Movimento Perpétuo.

X.X.X

Entrevista conduzida por Marco Tulio de Rose, publicada na Folha da Tarde, de Porto Alegre, em 26/12/1975.

Difícil é encontrar fenômeno mais curioso que o de Dyonélio Machado. É dos mais importantes escritores rio-grandenses, ocupando lugar ao lado de Erico Verissimo na década de 30. Ao mesmo tempo, sua obra máxima, Os Ratos, continua bastante desconhecida. Sobre ele poder-se-ia dizer como Érico – um dia alguém dirá que só agora se vê como esse escritor era importante – ou como Guimarães Rosa, que o colocava entre os cinco principais livros da literatura brasileira do século XX. Mas o mais importante é que o leitor leia alguma coisa sobre o romancista. E como o mais fiel testemunho sobre ele, não pudemos trazer outra pessoa que, se não, ele mesmo. A batida na porta do apartamento de Dyonélio Machado é cautelosa, com medo. Pelo telefone, ele havia concordado em conceder uma entrevista, desde que o jornalista trouxesse as perguntas alinhavadas, escritas.

- Eu sei que vocês gostam de dar a essas coisas um tom coloquial, íntimo, mas em todo o caso é o melhor já trazê-las (as perguntas) escritas.

O primeiro contato é feito através da “janelinha” da porta. São duas sobrancelhas brancas, hirsutas e levantadas que guarnecem olhos desconfiados, inquisidores. A sensação de um homem seco como sua novela Os Ratos permanece. Logo após, o homem que atualmente é o grande símbolo vivo da prosa moderna da década de 1930, no Rio Grande do Sul, abre a porta. Conduz os visitantes até uma sala onde destacam-se dois retratos desenhados de Dyonélio moço, além de uma infinidade de livros e aconchegantes sofás. Ainda perdura o constrangedor silêncio. Depois olhando os livros, seus livros, que o repórter trazia, o escritor abranda um pouco aquela mesma carranca que fez com que Érico o chamasse de “ogro”, em Solo de Clarineta, provocando protestos seus e de sua esposa, Dona Adalgisa, para perguntar, mais ou menos alegre:

- Pelo que vejo vocês vieram armados, de “Ratos” em punho!?

Aproveitamos a distensão para falar da extrema dificuldade de se conseguir livros de Dyonélio Machado. Afora Os Ratos que a Bels relançou, e Uma Definição Biológica do Crime, relançado na Feira do Livro, conseguimos a caro custo um raro exemplar de O Louco do Cati, graças à gentileza de um dono de “sebo”. Aproveitamos, também, para perguntar sobre se Deuses Econômicos teve alguma vez lançada a segunda parte. A partir daí, quase não aproveitamos para mais nada, uma vez que Dyonélio começou a falar e quase que não parou, como não parou de andar. Várias vezes, tímida mas decididamente, conseguimos interromper o tom alegre mas firme do escritor, para dirigir algumas perguntas que orientassem a conversação.

- O problema dos Deuses Econômicos é que andou circulando, muitos anos atrás, uma edição que estava péssima. Primeira parte mal revisada, mal impressa, assim por diante. Aí, dei-me ao trabalho de limpar as prateleiras dos Deuses Econômicos, consegui juntar grande parte do que estava sendo vendido por aí. E hoje está esgotado mesmo. A segunda parte, esta eu nem me preocupei em editar.

No contrato de reedição, feito com a Bels, talvez apareçam todos estes volumes…

- Você está enganado. Eu não tenho mais contrato algum para editar minhas obras. Estou com passe livre. Em primeiro lugar, a Bels teve todos aqueles problemas que atingiram as pequenas editoras brasileiras, quando o crédito que elas possuíam foi cortado pelo Ministério da Fazenda. Aí sei que minhas obras reeditadas foram muito mal distribuídas. Que existiram problemas quase insuperáveis. Razão pela qual, no distrato que fiz com a Bels, procurei com que eles tivessem minimizados seus prejuízos. Agora estou novamente livre, inclusive com algumas coisas, romances e novelas, inéditas. Só que a época não é boa para sair livro algum. Apenas de abril em diante, tenho a impressão.

O impressionante é que muita gente ainda pensa que Os Ratos estão esgotados. Houve falha na distribuição?

- Pois é. Ao que parece, houve uma transferência na frente de ataque. Ao invés de Porto Alegre, Rio de Janeiro. E, mesmo lá, parece que era difícil de encontrar o livro nas livrarias. Luís Luna – historiador, advogado e meu amigo – estes tempos reclamou, dizendo que seria esta uma época oportuna para distribuir.

A conversa evolui agora com mais fluência. Dyonélio Machado não pára quieto. Aloja suas visitas nas poltronas e fica volteando a larga sala, enquanto explica e conversa. Fala da sua idade, dos seus oitenta anos, do seu decanato na literatura rio-grandense do maior período. Confessa que sempre existe alguém mais moço do que ele. E conta da sua renovação da carteira de identidade no Conselho Regional de Medicina.

- Resolvi brincar com a moça que estava atendendo. Disse que o espelho do documento que ela me apresentava poderia inquinar toda a carteira de nulidade. Ela, espantada, pergunta-me por quê. Respondo que naquele espaço da data do nascimento, aonde esta 19…. eu só poderia preencher substituindo o nove pelo oito.

A minúcia da descrição de uma cena banal relembra a obra de Dyonélio, onde exatamente esta minúcia descritiva, aparecendo a cada momento e a cada instante, fazem parte do que há de mais valorizável e perene nos seus livros. Ouvir Dyonélio Machado contando incidentes de sua carteira de identidade no CRM é a mesma coisa que ouvir, como Naziazeno, os ratos roendo o dinheiro para pagar a conta atrasada do leiteiro. Da mesma maneira, quando o escritor volta ao passado, lembrando-se de seu tempo como vestibulando para Faculdade de Medicina:

- Com dezoito anos, em 1913, tentei o ingresso na escola de Medicina. Era a idade normal, mas não deu. Aí, eu desisti de estudar e foi casado, com uma filha, chefe de repartição pública, que voltei, graças a um fato interessante. Minha mulher, vendo a filha doente, pediu para que eu estudasse Medicina, ao menos para cuidar da nossa filha. Só que eu dependia ainda de alguns preparatórios, principalmente em Latim. Como na época atual, já naquela época o vestibular não tinha significado algum. Uma coisa ruim. Pois bem, à época eu estava trabalhando quase oito horas por dia e era próximo de novembro, tempo das provas. Precisava de um professor particular, mas quem aceitaria o risco de preparar-me, às vésperas dos exames? Mandei, por um contínuo, perguntar a Afonso Emílio Mayer, meu antigo mestre, se havia condições de estudar com ele, Latim. Foi o que ouvi como resposta: – quem é o louco que quer estudar Latim nesta época do ano? Aí, encontrei-me com o professor Afonso e eu mesmo pedi para ele. Professor, seus bancos de aula são compridos. Dá para mais um sentar numa ponta e acompanhar como ouvinte, apenas tendo a obrigação de pagar-lhe no final do mês? Ele, após relutar um pouco, aceitou. Acompanhei quieto todo o curso, sentindo que o professor fazia remissões para colocar-me em dia com o assunto. Confesso que tremi um pouco a perna antes do exame, mas deu para passar com distinção.

A conversa cai para um assunto que é impossível evitar. Como se processou uma mudança política tão radical nas ideias de Dyonélio Machado, um dos chefes da política municipal do Partido Republicano, levando-o até a Assembléia Legislativa, em 1945, como deputado eleito pelo Partido Comunista, passagem entremeada de anos de cárcere e privações? Dona Adalgisa, esposa de Dyonélio Machado, que até a esta altura via a conversa com olhares desconfiados, manifesta sua apreensão. “Para que estas perguntas? O que tem a ver uma matéria de 1975 com um tempo que já está definitivamente encerrado?” Sua pergunta medrosa, balbuciante, não requer outra que caberia sobre os trabalhos sofridos, o medo e a preocupação por aquele ente querido encerrado num cárcere do Rio de Janeiro. Vem-nos à cabeça as palavras de Graciliano Ramos, testemunhando seu profundo orgulho em conhecer Dyonélio, ter privado com ele duas vezes: “na entrega de um premio literário e no cárcere, por termos, ambos, cometido o crime de ser antifascistas no Estado Novo”.

Mas a voz precisa e refléxica do velho político faz com que despreocupemo-nos, momentaneamente, com aquilo. Todos escutam:

- Você está me perguntando qual era meu papel na Revolução de 1923, em primeiro lugar. Eu fui muito amigo do doutor Borges de Medeiros, do doutor Protásio Alves, de toda a cúpula do Partido Republicano. Minha família esteve sempre envolvida com a política e eu sempre fui político. Mesmo na década de 1930, fui muito solicitado para altos cargos eletivos... Então, eu não poderia apoiar o Dr. Assis Brasil. O Partido Republicano vinha sempre ao encontro das aspirações populares da época. O positivismo professava uma espécie de socialismo estatal. E o doutor Borges era assim. Nunca se esqueçam de que nós tínhamos a Viação Férrea estatizada, caso raro no Brasil, que tentamos criar um imposto progressivo sobre a terra, tentando utopicamente distribuir o latifúndio... Os maragatos de 1923, tendo à frente o homem de Pedras Altas, insurgiam-se contra este governo pequeno-burguês, de bacharéis e pequenos proprietários. Eles defendiam sob a capa do liberalismo político, o interesse seu dos terratenentes. Eu não poderia concordar com aquela insurreição. No fundo, era o socialismo que estava nascendo... E tem mais. O tempo era de grande liberdade. O doutor Borges de Medeiros teve que recorrer ao Poder Judiciário para fazer calar um jornal que apresentava da forma mais abjeta calúnias contra seus familiares. As reivindicações por liberdade não tinham sentido, sinceramente. Poucas vezes existiu tanta liberdade de expressão, de opinião, de livre trânsito, como no tempo do doutor Borges de Medeiros... Mas, e foi assim que eu respondi, na prisão, para o general Firmino Paim Filho, que veio visitar-me, neste ambiente eu só podia ter mesmo ideias socialistas. Assim foram os homens políticos que rodeavam o velho Borges. Nesta escola eu me formei. Apenas, depois, procurei evoluir neste socialismo, enquanto meus mestres iniciais ficaram estacionados.

Ao lado de Erico Verissimo, o senhor é o romancista gaúcho de maior renome nacional, na década de 1930. Apontado como um dos precursores do romance brasileiro moderno, simples, cada vez mais ao alcance de todos. Os Ratos, prêmio Machado de Assis de 1935, é o testemunho vivo de tudo isto. Agora eu lhe pergunto, o senhor e sua geração de romancistas são seguidores autênticos do modernismo da Semana de 1922?

- Olha, isto é uma piada, que eu deixo correr despreocupado, mas que não corresponde à verdade. Conversando numa das raras vezes, com Mario de Andrade e Osvaldo, vi que eles haviam feito aquilo, lá no Teatro Municipal, quase como pilhéria. E pegou. Mas nós não seguimos a geração de 1922. Os prosadores desta época, principalmente, conseguiram trazer o esoterismo do parnasianismo na poesia para a prosa. Esta tornou-se difícil, misteriosa, esotérica... Eu não compactuo com este gênero. Minha formação artística despreza o regionalismo, o esoterismo. Eu tenho a base moldada pelo positivismo de Augusto Comte, universalista geral. Uma arte feita para o maior numero de pessoas entenderem. E assim foram os romancistas da minha geração. Bastante duradouros porque populares. Nos não seguimos os modernistas, que pareciam viver nas nuvens. A nossa tradição prende-se ao universalismo de Monteiro Lobato, por exemplo.

O senhor poderia, como Éico Verissimo, ter vivido apenas de direitos autorais, caso se dedicasse inteiramente à Literatura. A pergunta é importante, pois na hipótese da negativa, ficaremos sabendo que nem o segundo escritor mais conhecido deste Estado pode ser profissional da ficção.

- Não poderia. Desprezando a questão de saber se eu venderia ou não, há uma bem mais importante... Eu sou um rebelde. Eu não sou do público. Sou incapaz de escrever algo pensando no que vão achar, qual será a impressão que causará. Sou incapaz de ser um vendido à editora, ou ao público. É o mesmo que o cachorro magro da fábula, não aceitando a vida fácil do cachorro gordo, pois tinha que usar coleira. Eu não sou um vendido, com sinceridade. Viver dos meus direitos autorais seria impossível, eu fracassaria no pouco que fiz de bom.

Mas com isto o senhor não quer dizer que Érico era um vendido ao público ou à editora?

- Eu sabia que você faria esta pergunta. Não, Érico não era. O caso de Érico Verissimo talvez eu classifique como uma exceção à regra. Talvez seja o caso feliz do pensamento de um escritor irmanar-se com o pensamento de seu tempo, de sua época. Talvez daí advenha o sucesso. Ele poderia, mas eu não. Não vai aqui nenhuma crítica ao homem para quem eu dediquei Os Ratos, já que foi ele quem me aconselhou a concorrer ao Prêmio. Houve incidentes, fatos da vida, que nos separaram. Mas eu seria incapaz de criticá-lo.

E a literatura gaúcha, hoje? Há escritores como Scliar que usam o fantástico, o esotérico às vezes. O senhor reprova? (Dona Adalgisa interrompe para afirmar que gosta muito de Moacir Scliar).

- Pouco conheço da literatura rio-grandense hoje. Agora, não tenho nada contra o fantástico. O Louco do Cati é um romance fantástico. Um, que eu tenho inédito aqui em casa, também. Mas o fantástico do cotidiano, não o esoterismo nas nuvens. Aliás, dois escritores que muito me admiraram, sobre os quais eu, infelizmente, não pude compartilhar da mesma opinião, são Guimarães Rosa e Mario de Andrade. O primeiro necessita um léxico, um vocabulário específico, para ser lido. Assim não dá... Aliás, sobre Mario de Andrade, talvez tenha se passado o incidente mais curioso dos oitenta anos de minha vida. Ele enviou-me um dos seus últimos livros de poesia, dedicado, dizendo que havia lido O Louco do Cati e que estava encantado, era o termo. Acontece que um conhecido comum apoderou-se da obra, e eu não fiquei sabendo disso. Em 27 de setembro de 1973, o Martins Livreiro telefonou-me dizendo que tinha uma coisa para mim. Era este livro, do qual eu fui tomar conhecimento três décadas e meia depois. Como, ao que parece, o conhecido comum era conhecidíssimo meu, o livro foi limpo de toda e qualquer referência ao seu proprietário indébito. Até algumas páginas foram arrancadas, pois deviam conter indícios fortíssimos.

Qual foi a reação a Os Ratos?

- Interessante. Quem pegava o livro gostava. Só que, à época, o autor estava no presídio. Então, era algo engraçado. As pessoas evitavam tomar conhecimento do livro. Quando tomavam, aí tinham que falar bem. O Moisés Vellinho dá a entender que o real vencedor do Prêmio Machado de Assis foi Os Ratos. Apenas que a premiação foi diferente, em termos oficiais. O maior jornal de Porto Alegre, da época, chegou a publicar um grande editorial elogiando o livro, apenas não fazendo menção ao seu autor em momento algum das extensas linhas laudatórias.

Em 1932, o Dyonélio Machado psiquiatra escreve uma tese sobre o crime. Livro hoje reeditado, Uma Definição Biológica do Crime. Várias perguntas gostaríamos de fazer. O livro é atual? Por que definição biológica, quando um homem como o senhor bem poderia ter escrito uma definição sociológica do crime?

- Antes de mais nada, vou dizer que o livro é atual. Atualíssimo. É uma Definição Biológica porque não é uma definição jurídica. Eu estudei o crime como um fenômeno da natureza. Nada de teorias jurídicas. Apenas o que a Biologia pode informar do crime como elemento pertencente ao domínio da fatalidade. O que melhor pode exemplificar isto é a passagem seguinte: O delito, em particular o assassínio, nada mais é do que a resultante, contra o semelhante, do excesso que o homem põe na realização da luta pela vida... Você teve uma pergunta de muita sagacidade, entre outras muitas nesse questionário tão informal. Mas que bem poderia constituir o ponto alto da sua curiosidade jornalística: – Por que biológica para minha Definição do Crime? E ao mesmo tempo aludiu a Lombroso. Talvez Luís Luna, historiador, jurista, não desconhecido da nossa imprensa – para a qual colabora – possa dar-lhe a resposta. Diz ele nesta carta, de bem poucas semanas: “Em toda a minha longa vida de bacharel desde os tempos da Faculdade, passando pela promotoria pública e pela advocacia militante, com incursões pela tribuna do júri, o melhor, o mais autêntico e perfeito que li ou ouvi dos mestres sobre o crime, foi esta simples e singela expressão: o crime resulta de um modo particular do indivíduo apresentar-se na luta pela vida”. Lombroso, como médico – remata Dyonélio – procurou a mesma solução para o crime. Apesar das suas vacilações, salva-o a generosa intenção.

Sua contribuição como psiquiatra…

- Bem, eu fui um dos primeiros a utilizar os métodos psicanalíticos no Rio Grande do Sul. O professor Roberto Pinto Ribeiro cita-me como o primeiro tradutor de psicanálise no Rio Grande do Sul. Mas não quis ser um psicanalista. De modo algum. Seria difícil para mim aceitar uma doutrina ou uma teoria dogmática, que encontrasse explicações para tudo. A Psicanálise encaminhou-se para isto. E eu sou um eclético que detesta qualquer unilateralismo, seja de ideias, seja de fatos. Não gosto e, como já disse, sou um rebelde.

A esta altura, Dona Adalgisa dá sinais inequívocos de sono, enquanto Dyonélio estaria disposto a continuar conversando muito. Mas, em respeito à anfitriã, que delicadamente soube manter nossos copos sempre cheios, durante aquelas quase cinco horas, pedimos para encerrar a conversa. Que terminou com um sincero voto de feliz Natal a todos os leitores.

X.X.X

Entrevista conduzida por Miguel de Almeida, publicada na Folha de São Paulo, 08/11/1981

 

- Posso te chamar de tu?

Dyonélio Machado saiu do elevador, andou até o meio do hall, pôs o dedo em riste. E disse.

- Você não me deixou nem fazer a barba, hein?

Estava satisfeito. Na noite anterior recebera o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, pelo seu romance Endiabrados, escrito há muitos anos, mas só publicado neste ano.

- É, sempre gostei de São Paulo. As pessoas daqui também gostam de mim.

Somente nos últimos cinco anos. Dyonélio Machado teve seu trabalho literário retirado do ostracismo. Ainda nas décadas de 30 e 40, seus principais livros – Um Pobre Homem, Os Ratos, O Louco do Cati – despertaram entusiasmados comentários de importantes escritores como Mário de Andrade, por exemplo. Com a reedição de O Louco do Cati, em 78, pela Vertente Editora, estaria começando a reavaliação de seus trabalhos, que até então andavam sem editores dispostos a publicá-los.

- Minhas primeiras edições foram pagas com meu dinheiro.

Mas Dyonélio Machado, ele deixa transparecer, nunca se inquietou com um certo silêncio de crítica ou de editores.

- Perdem tempo me elogiando. Sou vaidoso, sim

Ddiz se referindo a uma crítica publicada há muitos anos, alertando sobre a importância dum “romancista gaúcho”. Aos 86 anos, depois de trabalhar 50 como médico-psiquiatra, Dyonélio ainda escreve suas histórias. Não consegue se afastar da literatura.

- Gozado, não? Sempre tive um trabalho mental muito constante. Isto desde o meu primeiro emprego, aos 16, 17 anos. Muitas histórias ainda estão em minha cabeça.

Dyonélio é um típico contador de casos. Mas não parece gostar de perguntas. Prefere conversar sobre o que quer. Assim, responde ao interlocutor com frases curtas, às vezes secas, e logo pula para outro assunto.

- Você conhece minha historinha. Falemos de outras coisas – diz a frase e ri.

Em nenhum momento deixou que o gravador fosse ligado. Dizia:

- Se ligar essa máquina, não falo. Converso qualquer coisa, mas sem essa máquina.

Depois de falar inúmeros assuntos, sempre escolhidos por ele, se levantou da poltrona.

- A entrevista? Que entrevista? Faça uma coisa: escreva algumas perguntas que eu respondo por escrito. É melhor.

Diante dum exemplar de Os Ratos, disse:

- Nesta edição eu não te dou autógrafo. O editor não merece.

E saiu rindo, sem se despedir. Dias depois as respostas chegaram:

Folha – Você anda escrevendo algum novo livro? Se sim, pode falar um pouco deste trabalho?

Lá na minha máquina estão apenas 50 páginas. Não vale a crítica mobilizar-se por tão pouco.

Folha – Você sente alguma modificação de estilo narrativo em seus últimos trabalhos?

– Não me acho em condições de julgar o que em geral não sofre tais mudanças. Fora, claro, quando acompanha a vida da linguagem.

Folha – Qual é o seu processo de criação? Como ele se desenrola?

– Criação na arte? Ela surge no artista como elemento básico. Sobrepuja qualquer processo.

Folha – Como você constrói seus personagens, como se dá o estofo psicológico? Eles nascem a partir de pessoas reais?

- Você os considera, parece, uns bonecos articulados. Quando não o apanha na rua. Em ambos os casos não serve para aparecer como personagem numa obra de ficção.

Folha – E as histórias? Os enredos nascem da imaginação ou você costuma se apoiar em casos conhecidos, narrativas que ouviu?

Já num livro que agora mereceu, para minha surpresa, tão generosa atenção, eu assinalava a vantagem da ficção se apoiar na realidade. Ocioso perguntar por quê: a ficção acompanha a vida, mesmo quando apela para a magia, que toma o caráter então duma nova criação.

Folha – Seus trabalhos são extremamente econômicos, substantivos, sem nenhum excesso. As frases, mesmo os períodos, são enxutos. Nascem assim? Como você tomou gosto pela economia?

– O meu crítico devia logo, ele é jovem ainda, passar para a ficção. Aí praticaria, todos, os excessos que um trabalho literário está a pedir e que lhe nego.

Folha – A narrativa, em O Louco do Cati é muito cinematográfica. Você concorda? Foi tramado assim?

O Louco do Cati foi feito para ser lido. É o meu desejo. Talvez minha ilusão. Para o cinema, até hoje, não me atrevia a tanto.

Folha – Seus personagens possuem uma “vida interior” muito latente. Por que essa opção?

Não sei o que é isso. Talvez os meus bonecos gostem de meditação. É com eles.

Folha – Tanto Naziazeno, de Os Ratos, como o personagem do O Louco do Cati – me foge agora seu nome – surgem em situações limites. Naziazeno chega, em certos momentos, a beirar o desespero. É só uma técnica, uma opção literária, ou possibilita penetrar melhor na alma humana?

Eu somente sonhei fazer isso. Quando, como tudo vaticina, o amigo se filiar ao grupo muito maltratado dos romancistas, verá.

Folha – Por vezes, Dyonélio, a sua construção de romance, pelo menos onde a cena ocorre, me dá a impressão de que o personagem é um ser solitário, muito solitário, diante da paisagem.

Quando a paisagem permite, nada melhor para o ente, que faz dela um companheiro.

Folha – Dentro da literatura brasileira, você é um dos poucos a cuidar da linguagem. Esta sempre foi uma preocupação?

Sim, foi.

Folha – O Louco do Cati, a história, você se recorda como ela nasceu? Aquele personagem é baseado em algum caso verídico?

Tudo quanto se vê nessa figura ainda não é o bastante para abominá-la. Certa crítica – algo importante no passado – esquece que ele foi menino, que teve pais. Mãe sobretudo. Que viu horrores na infância, a servirem como elemento para um futuro mentecapto. Nem percorre até o final, onde se estabelecem duas coisas imperativas: o medo ansioso e finalmente a juventude salvadora.

Folha – Aquele comportamento, algo desligado, longe e alheio a tudo, você quis sugerir alguma crítica ao sistema político? Falo no O Louco do Cati.

De forma nenhuma. “Vérité poétique, vérité historique”. São bem diferentes entre si.

Folha – Quando dizem que O Louco do Cati é um livro sobre a ditadura de Vargas, contra ela, isso não o irrita? Não é querer prender o livro a acontecimentos circunstanciais?

Os que pensam assim hão de acabar fazendo a sua história, nua e crua. Quiçá mais atraente do que um poema. A Retirada da Laguna está a mostrar.

Folha – Pela década de 30, 40, aconteciam duas modas no Brasil. A primeira era o panfletarismo, a literatura engajada. A segunda era a mania de se escrever ruim, mal. O que você acha destas duas posturas?

– Perda de tempo.

Folha – Você demorou muito, só nos últimos anos, para ser reconhecido por seu verdadeiro valor. Isto não o deixa um pouco magoado? Ou acredita que seu trabalho é algo difícil, de lenta deglutição?

Não. A Arte é no fundo um prazer para quem a faz. Já lembrei a mais completa entre as romancistas atuais no Brasil – Julieta de Godoy Ladeira -, lembrei a essa escritora a confissão do autor do Crime e Castigo. Ele, quando trabalha nas suas obras, confessa: “Gosto mais de sonhá-las do que escrevê-las”. Há comigo uma transitividade que o leitor perdoará.

Folha – Você se preocupa com a crítica literária?

- Porque não? Eles são amigos.

Folha – Você concorda em ser classificado, o que já aconteceu, como autor de romances psicológicos?

Comecei a escrever antes de completar o curso.

Folha – Alguma vez a psiquiatria lhe forneceu material pra ficção?

Não acredito que o médico, seja qual for sua especialidade, desapareça dos romances. Ele, para a ficção, é tão natural como Naziazeno – que não foi louco nem doutor. Por isso acha-se incluído nos melhores trabalhos: com machado de Assis, Balzac, Eça de Queirós, etc.

Folha – Você tem alguma esperança sobre o Brasil?

Esperança sobre o Brasil… Vou estudar esse ponto. Depois satisfarei o desejo do repórter.

Folha – Em que horário você prefere escrever?

Qualquer horário. Ou melhor, pela madrugada.

Folha – Já tem, fora os Prodígios e Endiabrados, outro romance escrito há muito, ainda sem ter sido publicado?

– Por sinal são dois. E cedo aparecerão.

X.X.X

Entrevista conduzida por Léo Gilson Ribeiro e Danilo Uchoa. publicada no Jornal da Tarde, de São Paulo, 23/08/1980.

O livro Os Ratos, escrito em 1934, foi considerado por Guimarães Rosa “um dos dez melhores romances brasileiros” – mas na época o gaúcho Dyonélio Machado, seu autor, recebeu apenas uma crítica favorável, a de Amadeu Amaral. Hoje, aos 85 anos – que ele completou na quinta-feira passada – e com um lugar definitivo entre os nossos maiores autores -, Dyonélio lança um novo livro: Prodígios. Lúcido, rápido nas respostas e muito crítico – “A literatura brasileira está morta” -, o velho escritor, ex-preso político e ex-deputado estadual pelo PC fala sobre a sua vida, a sua carreira, sobre livros, escritores e autores nesta entrevista a Léo Gilson Ribeiro e Danilo Ucha. E avisa que a sua obra não acabou: até o fim do ano ele lança um novo livro, Endiabrados. O assunto? Dyonélio não conta.

- Sou um impostor. Apresento mais saúde do que realmente tenho.

A frase é do escritor gaúcho Dyonélio Machado, que completou 85 anos de idade quinta-feira passada, e vê seu mais recente livro Prodígios, ser bem recebido pela crítica do país, embora ele continue achando que não é lido nem compreendido em sua terra natal. Nem o sucesso nacional de romances anteriores, como Os Ratos e O Louco do Cati, obras consideradas fundamentais na literatura brasileira, conseguiu quebrar o gelo dos gaúchos, segundo Dyonélio Machado. Hoje a província se manifesta de maneira diferente do que era na época em que surgiram os primeiros livros e até os acha bons, mas não lê os meus livros, diz ele. Dyonélio Machado, nascido em Quaraí, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, no dia 21 de agosto de 1895, publicou o seu primeiro livro Política Contemporânea, com artigos políticos, em 1923, quando abandonou a faculdade de medicina por falta de recursos e foi ser professor e jornalista. Posteriormente, por insistência da mulher, voltou à faculdade, formou-se e tornou-se psiquiatra, trabalhando quase 50 anos no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. O primeiro livro de ficção, Um Pobre Homem, surgiu em 1927, editado às suas custas. Até hoje o autor tem mágoa da forma como a crítica da época no Rio Grande do Sul recebeu aqueles contos. A condenação foi tão forte que ele, arrependido, recolheu o livro, hoje uma raridade bibliográfica altamente disputada. Apenas um crítico, Amadeu Amaral, nas páginas de O Estado de S. Paulo, elogiou Um Pobre Homem, e por isso, para surpresa de muita gente, “que nem sabe de quem se trata”, o novo romance de Dyonélio Machado, o primeiro que publica nos últimos 14 anos, é dedicado a Amadeu Amaral, a quem também não conheceu pessoalmente. “Os críticos da província fizeram de mim uma figura antissocial”, diz Dyonélio Machado. Nem Os Ratos, que Guimarães Rosa considerou “um dos dez maiores romances brasileiros”, escapou. “A primeira coisa que se disse é que não era um romance e sim um conto”, afirma o autor. Este romance, que ele escreveu em 1934, recebeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1935. O escritor soube a notícia no navio em que se encontrava preso, a caminho do Rio, quando o barco parou em Santos. Dyonélio foi transferido para as prisões cariocas, depois de um ano preso em Porto Alegre, por dirigir uma greve de gráficos contra a extinção da Aliança Libertadora Nacional. Na prisão, conheceu Graciliano Ramos. Também solidificou sua posição política e sua ideologia socialista, tendo mais tarde, em 1945, sido eleito deputado estadual pelo PC. A prisão influiu muito na obra posterior de Dyonélio Machado. Tanto em O louco do Cati, que publicaria em 1942, quanto na trilogia iniciada com Deuses Econômicos, em 1966, continuada com Sol Subterrâneo (ainda não publicado) e encerrada, agora, com Prodígios. Outros livros editados na década de 40 e não relançados, Desolação e Passos Perdidos, também foram influenciados pelo que o autor sofreu na prisão. A situação dos personagens de Prodígios é muito semelhante à de Dyonélio Machado em 1935/1937:

- Eu saí da cadeia, dois anos depois, sem culpa formada. A prisão dá material para muitas coisas. Uns fazem memórias – são célebres as de Silvio Pelico -, mas eu achei melhor utilizar as minhas vivências em livros de ficção. Era um crime ter este material e não utilizá-lo. Eu não perderia tempo em camuflar qualquer que fosse a ditadura nacional.

Até o fim do ano, segundo ele, será reeditado o romance Desolação, pela Editora Moderna, e lançado um novo romance, Endiabrados, pela Ática. Dyonélio não quis antecipar o conteúdo da nova obra, mas observou que não é nada parecido com a literatura que se faz atualmente no país. Ele acha que a literatura brasileira “está morta”, mas depois admite que passa por um momento de transformação. Não condena que se retrate a situação atual, mas não acompanha este ponto de vista:

- Eu penso que está fazendo uma literatura de ficção pelas franjas. É a garota, o baile, a liberdade sexual… O que está havendo é uma sexualização do pensamento e isto é altamente produtivo porque o sexo vem de milênios, mas se faz tábua rasa do resto. Não entendo porque se dá tamanha importância ao sexo, quando há outras coisas tão ou mais importantes. Isso me afasta um pouco da atual corrente da literatura brasileira. Para ser assim, teria que fazer alguma coisa que meus confrades fazem: não sentir isso, mas dar a impressão de que sentem.

Não é muito fácil entrevistar Dyonélio Machado, porque ele não gosta de gravações, muda de assunto a todo o momento, pede para que se anote e depois pede que se risque o anotado, e teme dar qualquer opinião que possa ferir terceiros. “Eu sou amigo de todos, também das crianças e dos cachorros”, diz ele. Mas, depois de muita insistência, concedeu esta entrevista ao Jornal da Tarde:

- Seu último romance, publicado este mês, Prodígios, foi escrito há muitos anos ou é obra recente?

- É obra recente. Comecei em 1976 e terminei no dia 08 de março de 1979.

- A vida subterrânea de masmorras, exílios, opressão que se leva nessa Roma evocada em Prodígios é uma alegoria da ditadura getulista?

- Eu não perderia tempo em camuflar qualquer que fosse a ditadura nacional, quando se tratava dum dos momentos mais decisivos da História, como foi o drama do seu último César – Nero.

- Alguns críticos estabelecem uma relação entre Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, e O Louco do Cati. Seria possível aproximar essas duas obras e, se possível, como?

- Cada um desses livros tem sua técnica: uns são memórias do autor, outro uma obra de ficção.

- O senhor disse certa vez uma frase muito dolorosa, segundo a qual “cada dia a língua portuguesa morre um pouco mais”. Isso se deve à colonização do nosso idioma por termos estrangeiros, pelo mau uso que dele fazem os brasileiros, pela incorreção gramatical, pela pobreza de vocabulário, enfim, por que razões?

- São essas as razões, você já disse. A literatura, quando séria, serve como auxiliar dos regimes, velando pela liberdade

- A medicina tem alguma coisa a ver com a literatura? Afinal, Guimarães Rosa e o senhor, possivelmente, como Graciliano Ramos, os maiores romancistas do Brasil, foram médicos.

- Não. A medicina serve à literatura de ficção, sem escolha do literato. Haja vista aquela página, jamais igualada, da descrição de um delírio. Trabalho de romancista brasileiro e que recebeu, ao que se diz, a consagração dum dos maiores escritores da língua, Eça de Queirós, que a sabia de cor. Fora escrita por Machado de Assis, simples empregado público.

- Que importância o senhor atribui à atual abertura política, à liberdade de imprensa, à abolição dos atos institucionais, à anistia, à volta dos exilados, à publicação gradual de seus livros engavetados?

- Não sou mais político, que ande examinando uma situação que demanda, em si mesma, muita convivência com os fatos. Minha idade já avançada, meu estado de saúde já não comportam um trabalho que a vida política exige.

- O regime da URSS o decepciona como socialista?

- Quem é que, apenas conhecendo a URSS pelos seus difamadores, sem um contato pessoal, pode opinar seja sobre qual assunto que a interesse?

- Pode haver literatura válida sem liberdade real?

- Não. A literatura, quando séria, transforma-se num auxiliar dos regimes, velando pelo que mais concorre para isso – e que não é outra coisa senão a liberdade.

- Seu estilo sofreu alguma influência de algum autor português, quem sabe Eça de Queirós, pela absoluta correção que caracteriza, por exemplo, Os Ratos.

- Não me é dado averiguar isso. A mim me parece que escrevo como sei, sem copiar ninguém, nem primar por uma originalidade. Tenho predileção pela boa linguagem, embora mais corriqueira. Muitas vezes sou procurado por pessoas um tanto ingênuas, que querem saber como se pode ser escritor. Meu conselho é este: escreva como quem fala. Não fui modernista. O que quis era, examinando o passado, entender o presente

- Como foi a gênese de Os Ratos? Baseia-se em pura ficção ou em algum fato realmente ocorrido?

- É de uma época em que eu já não tinha mais ilusão com a literatura nem com a medicina, que abandonara há nove ou dez anos por necessidade de trabalhar. Minha filha estava doente e nos trazia em sobressalto. Um dia, minha mulher pediu para eu voltar a estudar medicina, nem que fosse para cuidar de nossa filha, e eu voltei. Chegava a estudar 17 horas por dia. Minha mãe também andava doente. Um domingo, estava em casa, estudando, quando minha mãe chegou e disse que não tinha conseguido dormir à noite toda, com medo de que os ratos roessem o dinheiro que meu irmão havia deixado na cozinha para o leiteiro. Senti uma emoção enorme com aquele drama. E escrevi um conto, mas depois vi que ele não tinha a mesma emoção que eu havia experimentado na conversa com minha mãe, não valia nada, era um conto banal. Passei nove anos pensando nisso, até descobrir que o drama não estava nos ratos, nem no leiteiro, nem no dinheiro, mas, sim, na dificuldade em conseguir o dinheiro. O Érico Veríssimo, que não gostava do que eu escrevia, gostou de Os Ratos e chamou a atenção para algo interessante, os amigos de Naziazeno eram semivigaristas, mas com a bondade do pobre homem. Eu levei nove anos pensando nisso e escrevi o livro em vinte noites.

- E O Louco do Cati?

- Foi um desafio com a morte, ou eu escrevia o livro ou morria. Eu já tinha tido um colapso periférico e ouvido o grito da minha mulher, que era igual ao grito das mulheres cujos maridos estavam morrendo, e eu como médico sabia disso. Eu reagi contra a morte. Utilizei minhas vivências neste período (Dyonélio Machado foi preso político de 1935 a 1937, saiu muito abalado da prisão e escreveu o romance em 1941) não com um caráter memorialista, mas como elemento para a ficção. Não achei que fosse mais duradouro, não, porque não tinha nenhuma esperança, mas que seria melhor. Para mim, pelo menos. Quem eu sou para ter memórias?

- O que o senhor acha de ser reconhecido unanimemente pela crítica e pelo publico como um dos maiores escritores da língua portuguesa?

- Eu acho que este reconhecimento não está muito certo, eu não sou nada disso. Eu não me sinto assim.

- A seu ver, o movimento modernista de 22 teve algum impacto na literatura brasileira e especificamente na sua obra?

- Na minha obra não. Deve ter influenciado a literatura brasileira porque grande parte da mocidade que escreve toma a história da literatura brasileira a partir deste movimento. Examinando os meus livros, há de se ver que eu não fui modernista em coisa nenhuma. Ao contrário, o que eu quis era, examinando o passado, compreender o presente.

- O tão proclamado “boom” da literatura latino-americana na Europa e nos Estados Unidos foi, na verdade, um “boom” hispano-americano. Que autores o senhor destacaria nessa galeria? Borges? Cortazar? Rulfo? Carpentier? Vargas-Llosa?

- Não sou muito conhecedor da literatura latino-americana. Alguma coisa tem a minha crítica, mas não digo por que conheço pouco. Um deles, se não plagiou, foi influenciado por um conto de Balzac, e fez algo sem o valor que tem o conto de Balzac. Não vale a pena citar o nome do rapaz, mas o conto de Balzac é A procura do absoluto. Hoje há a sexualização do pensamento. O sexo sempre foi um problema sério, mas agora…

- E no Brasil, qual o romancista que mais fundamente o sensibiliza?

- É o velho Machado de Assis. Não em toda a sua obra, é claro, mas em alguns livros, e o que eu mais destaco é o Memórias Póstumas de Brás Cubas. Certa vez li uma comparação de Machado de Assis com Dostoievski, que este tratava dos grandes crimes e Machado dos pequenos crimes. Eu já havia sentido isso antes de ler esta opinião.

- Há décadas se propala a morte da literatura, massacrada pela TV, pelo cinema, pelo jornal, pela tecnologia, pela eletrônica, pelo analfabetismo intelectual, pelo preço alto dos livros. Isso lhe parece verdadeiro ou plausível?

- Eu já falei nisso há muito tempo, há mais de 20 anos. A literatura brasileira está morta. Em primeiro lugar, porque hoje o objeto mais querido para dar vida à literatura é o sexo, houve a sexualização do pensamento. O sexo sempre foi um problema sério, muito sério, mas não chegava a dominar o pensamento. Ao contrário. Ele era até fugidio. Agora não, agora ele se mostra de uma maneira tal que ele vai até acabar. Essas coisas são tão usadas, tão usadas, que depois não se usa mais…

- O senhor acredita, então, que a literatura brasileira está realmente morta?

- Está morta. Talvez não esteja ainda sepultada, não é? Mas que está morta está. Amanhã ou depois, ela não terá mais vida, tudo vai se fechar para ela, até que volte uma outra aragem. Quer uma prova disso? Vem alguém falar comigo, entrevistar-me sobre a minha obra, mas o entrevistador não leu a minha obra, nem lerá.

- Quando aconteceu isso?

- Acontece todos os dias. Eu não me presto mais para sessões de autógrafos, porque quando se compra o livro lá, não é porque se é amigo do livro ou da literatura, e sim do escritor. Uma vez comprado, não precisa ser lido, e o que acontece é isso. Em minha última sessão de autógrafos, fiquei seis horas assinando livros, das 6 horas da tarde até a meia-noite e, desses que compraram o livro, meia dúzia leu.

- O quase virtual desaparecimento de editores pujantes como a Globo, de Porto Alegre, e a José Olympio, no Rio, que não são mais as editoras de vanguarda de autores estrangeiros e brasileiros, lhe parece ser sintoma da crise editorial brasileira?

- Não é bem assim, não desapareceram e há outras que as substituíram, com o mesmo valor.

O Brasil de hoje, como o senhor vê, como marchando para uma democracia ou tudo como antes?

- Esta eu jáo respondi. Não sou mais político, minha idade e minha saúde não permitem que acompanhe tais assuntos.

O que o senhor acha da ficção científica?

- Uma revista de detetives também dá algum prazer. Não é literatura. É uma literatura satélite, como um fantasma do écran da televisão.

Por acaso o senhor postularia a sua candidatura à Academia Brasileira de Letras?

- Certa vez, um cidadão telefonou-me do Rio e fez esta pergunta. Dei uma enorme gargalhada e ele considerou a gargalhada como resposta. Sou membro da Academia Rio-Grandense de Letras, como pagamento de uma dívida que eu tinha com meu Estado, a quem não dei nada. Ao Brasil não devo nada, estou dando meus livros a ele. Eu sei o meu lugar, não é…

- Por que escrevo?

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