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Grandes entrevistas

 

Cyro dos Anjos

Entrevistado por Homero Senna, publicada na Revista do Globo, nº 474, de 08/01/1949 e republicada em seu livro: SENNA, Homero. República das letras. 3ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

* * *

Entrevistar Cyro dos Anjos é coisa fácil, pois o romancista está sempre pronto a responder às perguntas do repórter. E como já concedeu inúmeras entrevistas, várias questões se acham de antemão respondidas. Qualquer jornalista que disponha de um razoável arquivo conseguirá fazer uma boa entrevista com o criador de Abdias sem trocar com ele uma única palavra. Bastará recortar aqui e ali, nas muitas conversas que tem tido com repórteres, em Minas e no Rio. Nós, porém, não fizemos isso. Fomos, de fato, procurá-lo, mesmo porque havia em nosso questionário diversas perguntas para as quais não encontraríamos resposta nas entrevistas anteriores, concedidas a Oto Lara Resende, Ascendino Leite, Paulo Mendes Campos e vários outros indiscretos perguntadores.

De início, porém, o nosso trabalho estava facilitado, pois, para transmitir ao leitor alguns dados biográficos do entrevistado, bastaria recapitular trechos da pequena "Autobiografia" por ele escrita em 1947 para o Diário Carioca:

"Nasci em Montes Claros, norte de Minas, no ano de 1906, sendo o décimo terceiro de um casal de quatorze filhos. Meu pai, o Coronel Antônio dos Anjos, como já era chamado ao tempo em que nasci, veio, menino, da fazenda para a cidade, e começou a vida com um jornal e uma tipografia. Mais tarde foi, sucessivamente, professor da Escola Normal, comerciante e fazendeiro. Quando me entendi por gente, ele já contava mais de cinqüenta anos, tinha os bigodes grisalhos, a pele cheia de rugas e crestada pelo sol do sertão. Versado em letras latinas, era, contudo, homem de seu tempo, entusiasta do progresso das ciências, em que punha ilimitadas esperanças, como bom filho do século XIX. Minha mãe vinha de uma família de ascendência italiana - os Versiani - que moraram primitivamente em Diamantina e depois se passaram para o sertão. Possuía temperamento artístico, havendo criado em nossa casa sertaneja um ambiente interessante, considerada a época e o meio. Num piano “Pleyel” que chegou a Montes Claros em carro de bois, atravessando rios cheios durante o trajeto, fazia-se boa música, e um melômano exigente teria ali ouvido o seu Bach, que as moças da casa não executavam de todo mal.


Minha vida de menino e de adolescente passou-se entre a fazendola de meu pai, os amores reprimidos no peito, a leitura de romances e as primeiras aventuras literárias, em jornaizinhos que, mal nasciam, desapareciam. Cumpri, também, o meu tempo de serviço na loja do velho, como aconteceu a todos os irmãos. Aos dezoito anos, conseguida uma colocação em Belo Horizonte, para ali fui, com o propósito de estudar. A capital deslumbrou o moço vindo da roça. O emprego público, o jornal, a Faculdade e as livrarias absorveram o estudante de Direito, que frequentava pouco os tratados, mas, em compensação, se deliciava com Stendhal, Proust e Gide. Foi quando conheci o poeta Carlos Drummmond de Andrade, que se tornou o chefe literário da nossa geração. Como aos de hoje, Drummond fascinava os rapazes de 1926. Não aliciava discípulos. Com a ferocidade drummondiana, descoroçoava, mesmo, aqueles que se aproximavam. Contudo, atraía-os.

Findo o curso de Direito, vieram o casamento e a vida pública. O amanuense passou a oficial-de-Gabinete o oficial-de-Gabinete passou a diretor da Imprensa. Foi nessa ocasião (1937) que saiu O Amanuense Belmiro. Mais tarde, vim a exercer outras funções, como as de membro do Conselho Administrativo do Estado e, finalmente, presidente desse órgão. Data dessa época recente (1945) o Abdias. Minha vida tomou assim, a dupla direção: função pública, letras. Enquanto isso a família cresceu.

Deixarei de mencionar aborrecimentos que tive na política. Tornariam longo este simples registro biográfico e nada lhe acrescentariam de substancial. Resumirei o final de minha história, contando que, ao se extinguirem, em 1945, os Conselhos Admínitrativos dos Estados, eu me preparava para voltar à advocacia, que abandonei pouco depois de formado. No início de 1946 fui, porém, de novo convocado à função pública, desta vez no Rio. E aqui me encontro entre a atividade burocrática e a literatura, como sempre.
(1)

A nova função pública a que se refere o autor de Abdias e à qual foi chamado em princípios de 1946 foi a de assistente do Sr. Carlos Luz, então Ministro da Justiça. Deixando este a pasta, foi Ciro dos Anjos convidado a exercer o cargo de diretor do Departamento de Assistência do IPASE. (2) Seria interessante apurar se o mineiro de Montes Claros já se acostumou às novas funções e à vida no Rio.

O lugar, apesar de muito trabalhoso, é simpático para um velho amanuense - responde-nos ele. - Quanto à vida no Rio... Bem, você sabe que aqui a gente vive sempre intranqüilo. Contudo, já agora estimaria ficar. Mas gostaria de ter situação mais estável, que me desse tempo para certos estudos que me atraem.

- Que estudos são esses?

De Filosofia, de Literatura...

- Se lhe fosse dado recomeçar, que gostaria de ser?

- O que realmente sou - escritor. Mas com uma cultura sistematizada, que me falta. Teria, por exemplo, enorme prazer em estudar a fundo as literaturas antigas, principalmente a grega e a latina. Para isso, entretanto, falta-me o conhecimento das respectivas línguas. Em suma, se me fosse dado recomeçar, gostaria de ser escritor mesmo, porém com a formação humanística que as circunstâncias não me permitiram ter, pois, como todo ou quase todo brasileiro da minha geração, sou um autodidata.

- Observo-lhe, então, que apesar disso costuma ser apontado como um dos modernos escritores brasileiros que melhor escrevem. Gladstone Chaves de Melo, por exemplo - que pertence à nova e esplêndida geração de filólogos brasileiros - no seu livro A Língua do Brasil, referindo-se ao estilo de Cyro dos Anjos faz esta comparação, sem dúvida muito honrosa para o estilista de Montes Claros: "Eu diria que o autor de O Amanuense Belmiro atingiu o nível do velho Machado, quanto à elegância, novidade, clareza e desenvoltura da linguagem!" Olhem que o elogio não é pequeno, .. Lembro ao meu entrevistado essa comparação, e a propósito observa ele:

Li na ocasião o que escreveu Gladstone Chaves de Meio, e seu juízo, sobretudo por partir de um grande estudioso do nosso idioma, muito me desvaneceu. Naturalmente, esforço-me por escrever com propriedade. Mesmo porque neste ponto estou de acordo com Afonso Lopes Vieira, quando observa que, assim como há uma dignidade de maneiras, também há uma dignidade de sintaxe. Certos erros são tão grosseiros que ofendem os bons costumes. Evito, assim, quanto possível, as incorreções de linguagem, até por uma questão de estética.


- Pode-se dizer que seja um estudioso da língua?

Estudioso sou, mas a meu modo. Gramáticas, por exemplo, só consulto em último caso. Não tenho hábito de ler literatura desse gênero. Prefiro compulsar dicionários ...

- Como Graciliano Ramos...

Não. Graciliano, segundo consta, costuma pegar do dicionário e ir lendo-o, como se fosse romance ou tratado. Comigo a coisa se passa de modo diverso. Não apanho nunca um dicionário com a intenção de lê-lo. Contudo, quando vou procurar o significado de uma palavra, não é raro que me perca pelas suas páginas e me deixe prender pela leitura, não apenas do verbete procurado, mas também dos que estão acima e abaixo. E assim às vezes fico um bocado de tempo com o dicionário nas mãos...

O repórter passa os olhos pela sala e verifica que numa das estantes estão todos eles: desde os portáteis, como o de Aurélio Buarque de Holanda (3) até o de Laudelino, em cinco grossos volumes.


- Para isso, quais os de sua predileção?

O do Aulete e, pelo pitoresco, o de Domingos Vieira. Os dicionários não resolvem todos os problemas, mas ajudam muito. Verdadeiramente, o domínio da língua não se adquire com o estudo da gramática, que é atordoante e pouco apetecível. Só a leitura de bons autores nos familiariza com o vernáculo. Foi essa, pelo menos, a experiência que adquiri quando, durante dois anos, mais ou menos, lecionei Português num Ginásio de Belo Horizonte.

- Gosta que, como escritor, a todo momento o estejam aproximando de Machado de Assis?

Como certa vez já disse, em literatura acontece o oposto do que se verifica na sociedade: ninguém gosta de exibir antepassados ilustres, e cada um prefere ser o tronco da própria estirpe...

Apontado pela crítica como machadiano, não só no estilo mas também na maneira de construir os seus livros, seria interessante puxar pelo romancista e ver o que diria ele a respeito.

Entendo que os autores não devem vir a campo para discutir a opinião dos críticos. Confesso-lhe, entretanto, que não vejo como O Amanuense possa situar-se sob o meridiano de Machado. Acredito que os críticos que assim entenderam deixaram levar-se por aproximações de caráter puramente formal, isto é, pela analogia entre processos técnicos empregados no Amanuense e nalguns dos livros de Machado de Assis. Mas nem esses processos foram invenção de Machado pois têm sido utilizados por escritores de todas as literaturas, desde que o romance existe - nem poderiam constituir base, por si sós, para que se atribuísse a um escritor determinada filiação literária, São processos por assim dizer "materiais". O que, a meu ver, define a sutil atmosfera machadiana é a secura, a preponderância do elemento intelectual, a ausência de lirismo e o gosto pelo jogo de conceitos - inesperada forma de barroco, disfarçada na simplicidade da linguagem. Ora, O Amanuense é um livro sentimental, e basta dizer isto para dar idéia de um ambiente não-machadiano. Como autor, sinto constrangimento em descer a pormenores, ocupando-me demasiado da própria obra, mas gostaria que apontassem em que O Amanuense, feita abstração daquelas afinidades de forma a que aludi, se contaminou do espírito machadiano.

A um crítico arguto - o Sr. Antônio Cândido - Abdias, o segundo romance de Cyro dos Anjos, pareceu um simples eco de O Amanuense Belmiro. O autor naturalmente não seria a pessoa indicada para discutir esse assunto. Não posso, entretanto, deixar de perguntar ao escritor qual dos dois romances prefere.

Nunca apurei isso, apesar de a questão já me ter sido proposta algumas vezes, por colegas seus e por mim mesmo. Os livros são como os filhos. E é sabido que os pais tendem a gostar mais dos que não são felizes ou sejam menos dotados. Por isso, talvez prefira o Abdias, que não teve, da parte da crítica, o acolhimento que O Amanuense recebeu. É o que se poderia chamar uma ternura de compensação.

- Tendo publicado seu primeiro livro em 1937, quando, portanto, já havia surgido a geração pós-modernista de 30, e sendo, como acima apontamos, um escritor castiço, de forma elogiada pelos mestres da língua, qual teria sido a posição de Cyro dos Anjos em face do movimento de 22?

Comecei a participar da vida literária quando o Modernismo já estava em declínio. Mesmo assim, como uma espécie de segunda geração, fiz parte, com meu amigo Guilhermino César, do grupo do Drummond, do Emílio Moura e do João Alphonsus. E desde logo "topei" o movimento, atraído pelo seu impulso de renovação e pela procura de novos caminhos. Foi um movimento fecundo, não há dúvida, e até hoje se reflete em nossas letras. Afinal, a geração que fez o Modernismo, apesar de decorrido mais de um quarto de século, ainda está "no poder".

- Mesmo na sua fase de participação modernista, escrevia com o apuro com que escreve hoje?

De início, em Belo Horizonte, influenciado pela moda, também me entusiasmei com essa história de "língua brasileira", sem atentar para o fato de que se tratava de uma invenção literária, duma língua artificial, sob muitos aspectos. Isto, porém, numa breve fase da minha adolescência, Minha atividade de escritor iniciou-se de fato com a publicação d'O Amanuense, em 1937. Entretanto, quando aderi ao Modernismo, já havendo passado a fase iconoclástica, não se considerava pecado escrever com algum apuro de forma.

- Muito atencioso e amável, Cyro dos Anjos, desmentindo a tradicional reserva mineira, já tem sido apontado como o exemplo típico do "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda. E, embora residindo relativamente há pouco tempo no Rio,já formou aqui largo círculo de amizades.

De fato, sou homem sociável. Nisto como noutras coisas, não tenho singularidades. Julgo-me uma criatura bem comum. Não acho obrigatório que um indivíduo dado às letras ou às artes seja complicado ou difícil. Há quem pense que um escritor deva segregar-se como um bicho de concha. Por que motivo? Aprecio bastante um bate-papo com amigos, apesar de ser mau conversador, pois experimento certa dificuldade em falar. Sinto-me mais à vontade escrevendo. Você já deve ter notado que estou longe de ser fluente. Fico sempre voltando sobre o que disse, à procura de uma expressão que faltou... Mesmo fisiologicamente, sou mal dotado para a conversação: por isso, em Minas, tive de deixar de lecionar. Quando era obrigado a falar o tempo todo, chegava ao fim da lição sem voz.

- Costuma ir a teatros, reuniões, conferências?

A conferência só compareço como um ato de solidariedade, uma prova de amizade, assim como vou a missas de sétimo dia. As reuniões que costumo freqüentar não têm o caráter que adivinho na sua pergunta: são reuniões íntimas, de amigos ou parentes. Ao teatro costumo ir uma vez por outra.

- Gosta de cinema?

Gosto, moderadamente. E quase nunca os freqüento, por causa dos maus programas.

Bem-humorado, pergunta-nos Ciro dos Anjos:

Mas, quer saber do que realmente gosto?

Não tinha ainda respondido, quando ele esclareceu:

De andar a pé!


E diante da minha admiração:

É que tendo pés chatos, as longas caminhadas eram para mim, até há pouco, um sacrifício, quase um martírio. Há meses, porém, descobri que o uso duma palmilha de metal corrigia o defeito e me capacitava para andar, sem incômodo. Que experiências novas isto me trouxe! Em minha lua-de-mel, um tanto tardia, com o nobre exercício da marcha, tenho conhecido emoções das mais puras da minha vida.

Cyro dos Anjos fala-me, entusiasmado, do prazer de andar a pé. Lembro-me, então, de que alguém, em conversa comigo, já aludira a essa sua nova mania, e insinuou que ele tem, mesmo, toda uma teoria a respeito.

Qual teoria! Quis essa pessoa referir-se, naturalmente, a um artigo que outro dia escrevi, sob o título "Andar a pé".

Mostro-me curioso de conhecer esse artigo, e o meu entrevistado, abrindo uma pasta que estava sobre a mesa, depois de remexer nuns papéis, passa-me um recorte de jornal. Digo-lhe que prefiro ser iniciado na nova teoria através da palavra de seu criador, e o romancista, então, lê para mim:

"Dir-se-ia que o habitante das cidades desaprendeu o uso dos pés: pouco ou quase nada caminha. Consoante as possibilidades da Bolsa, andará de automóvel, de ônibus, de bicicleta, de Carreta ou de bonde, mas nunca se lembrará de que foi dotado de um par de engenhosos aparelhos ósseos e musculares que, articulados com as extremidades das pernas e conjugados com o resto do esqueleto, lhe permite a marcha bípede, na posição vertical.
"Tão pouco o carioca se serve das pernas, que dentro de alguns milênios, se assim continuar, deverá perdê-las - assegurou o eminente anatomopatologista alemão Jakob, quando, há alguns anos, esteve no Rio. A Natureza não conserva órgãos inúteis, esclareceu o sábio."
"O caminhante perfeito - o andejo por excelência, o caminhante puro - dispensa distrações subsidiárias. Andar a pé não importa onde, seja qual for a paisagem, eis o que lhe convém. Aos que se prendem, ainda, aos atrativos da natureza circundante e que não foram conquistados pela marcha desinteressada, aconselha-se percorrer a orla da praia, pela manhã, com o sol pouco alto, como faz o escritor Rubem Braga. Há o espetáculo do mar, a policromia das barracas, a graça das banhistas, a pureza do céu. A outros, menos exigentes quanto à paisagem, e mais inclinados à solidão, poder-se-á sugerir, como local adequado para deambulações, as fraldas da montanha, na Gávea, em Botafogo, nas Laranjeiras ou na Tijuca. Ou certas ruas quietas da Fonte da Saudade, onde não há grande risco de morrerem sob as rodas de um automóvel."

Há outras coisas no artigo - esclarece. - Mas para um não "'iniciado", aí está o essencial daquilo a que você, por brincadeira, chamou "teoria" ...

- Você que espécie de andarilho é?

Posso dizer que conheço as delícias da pura arte de andar, escoimada de todo elemento parasitário... (4)

- A um canto da sala, a sugerir que aquele seria também um dos prazeres do andarim Cyro dos Anjos, estava a vitrola, elétrica e com mudança automática de discos, como convém a um melômano do nosso tempo. Pergunto-lhe se também é aficionado da Música.

Em nossa casa, na longínqua Montes Claros, minhas irmãs tocavam piano, à velha moda mineira. Assim, desde cedo acostumei-me a ouvir música. Agora, vou procurando formar a minha discoteca.

- Coisa tão importante como uma biblioteca ...

- Para muitos. No meu caso, não. Embora goste de música, esta é apenas uma amizade, um namoro, um flerte. A literatura (especialmente a prosa) é que é, para mim, o casamento, a união legítima. E sou monogâmico...

- Tem horas certas para ouvir música?

Não. Como quase toda gente, ouço em geral à noite e aos domingos, durante o dia.

É comum, hoje, no Rio, os que dispõem de boas discotecas organizarem pequenas audições para os amigos. Cyiro dos Anjos esclarece-me que costuma ouvir música na intimidade, com a família. Também não deseja ser um entendido. Considera-se um ouvinte primário, cuja necessidade musical se satisfaz simplesmente com ouvir, sem nenhuma erudição.

- Costuma ir a concertos?

Não. Acho-os, de um modo geral, muito incômodos. Além do mais, você vai ouvir um programa que não escolheu e que talvez não seja o que o seu estado de espírito pediria naquele momento.

- A que horas costuma ler e escrever?

Antigamente, no tempo em que escrevi O Amanuense, trabalhava à noite e às vezes só de madrugada ia deitar-me. Hoje prefiro escrever ou ler pela manhã. A vida no Rio é bem mais cansativa que no interior. Tive de mudar de hábitos, pois às vezes chego da cidade tão cansado, que nem música posso ouvir: vem logo o sono. Deito-me, então, cedo, e levanto-me por volta de seis, seis e meia. E só saio depois do almoço. Praza aos céus que sempre possa conservar minhas manhãs livres, porque sem isso...

Dizem que Ciro dos Anjos é forte concorrente à primeira vaga que se verificar na Academia. Assim, antes de terminar a entrevista, não posso deixar de aludir a isso, e a propósito, com toda a naturalidade, diz-me ele:

Alguns amigos falaram-me na possibilidade de entrar para a Academia. Se chegar a minha vez, não terei dúvida em candidatar-me, mas não tenciono inscrever-me para ser derrotado. Nessas condições, como as vagas, ali, são muito disputadas e eu não tenho temperamento eleitoral, é possível que nunca me candidate. Parece-me, também, que, antes de mim, há outros mais antigos na fila ou com melhores títulos. (5)

- Acredita nas Academias, de um modo geral?

As Academias exprimem um aspecto social de literatura. E quando não existem oficialmente, organizam-se de modo espontâneo, nos cafés ou nos salões. De qualquer modo, não herdei dos modernistas o preconceito antiacadêmico, e parece-me simpático para um escritor brasileiro pertencer a um grêmio fundado por Machado de Assis.

- Que planos literários tem para o futuro?

Estou escrevendo um terceiro romance. Chamar-se-á provavelmente Timóteo e será a biografia imaginária de um político. Não se trata, pois, de um romance à clef, pois tudo nele, desde os personagens até o lugar onde a ação se desenvolve, é produto da imaginação. Achei preferível assim, porque ficarei com maior liberdade, no tempo e no espaço. O romance se passa numa província fantástica, não prevista por Teixeira de Freitas no seu plano de divisão administrativa do país, e que se situaria entre Minas e São Paulo. A província chama-se Montanha, e tem por capital a cidade de Cristália. Esse livro representará para mim uma experiência nova, pois não é escrito na primeira pessoa, como O Amanuense ou o Abdias, e sim na terceira, e de modo mais objetivo. É romance de fatura difícil, já que a trama que envolve a vida de um político é sutil e complexa. Além disto, embora transporte para suas páginas minha experiência e observação de dez anos de política, tenho de me esforçar para libertar-me dos modelos vivos que pululam por aí, à cata de autores ...

- Quando espera publicá-lo?

Daqui a uns dois anos, mais ou menos. Sou um homem sem pressa... (6)
_______________

Notas:
(1) Esta pequena nota autobiográfica foi depois ampliada num livro que é um dos pontos altos do nosso memorialismo: Explorações no tempo (Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio, 1963). Com o texto revisto. esse volume passou a integrar A Menina do Sobrado (Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio, 1979), sob o título de "Santana do Rio Verde".

(2) Com a transferência da capital para Brasília, foi nomeado Ministro do Tribunal de Contas do Distrito Federal, cargo em que se aposentou.

(3) Na ocasião, queria referir-me ao Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (conhecido como o pretinho), organizado por Hildebrando de Lima e Gustavo Barroso, publicado pela Editora Civilização Brasileira e, a partir da 3ª edição, revisto por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

(4) Talvez por influência de Cyro dos Anjos, também o poeta Carlos Drummond de Andrade, seu velho amigo e compadre, aderiu ao hábito das grandes caminhadas a pé e numa crônica das mais saborosas fala-nos de suas deambulações do Leme ao Posto 6, quando "um homem exerce a felicidade do movimento, só, descompromissado, na noite que o envolve". Salientando que "o ato de andar vale por si mesmo, sublinha o entendimento do corpo com o que se costuma chamar de espírito", aconselha que, naquele bairro, "se tome a calçada entre a rua e a praia, que não se interrompe nas esquinas e permite criar um ritmo pessoal e constante". ("Andar, simplesmente", in Correio da Manhã de 07/07/1965).

(5) Elegeu-se em 02/04/1969 para a cadeira nº 24, como sucessor de Manuel Bandeira.

(6) Cyro dos Anjos – Montanha (romance) Rio de Janeiro. Livraria José Olympio, 1956.


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