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Crítica Literária
Octavio Paz

“Não sei se ela (a crítica literária) é indispensável em todas as sociedades. Na nossa sociedade, não somente é indispensável como inevitável: a Idade Moderna nasceu com o pensamento crítico. A ilustração foi um movimento de críticas às instituições, da filosofia, religião, política, moral, costumes, erotismo. Naturalmente, a estética não escapou desse escrutínio da razão. Não é preciso lembrar Kant, para não falar de Diderot, que não apenas refletiu sobre o romance como também sobre a pintura. Desde então todos os movimentos poéticos e artísticos foram acompanhados pelo pensamento crítico. Em geral, esses movimentos têm sido duplamente polêmicos: de um lado, combateram a tradição do passado imediato e, de outro, inventaram ou redescobriram outra tradição. Os românticos romperam com a estética neoclássica e exaltaram a tradição medieval. O romantismo não foi apenas a aparição, a irrupção de grandes obras poéticas, mas também de memoráveis textos de crítica e polêmica. Na Inglaterra, Wordsworth, Coleridge e, na geração seguinte, Shelley e outros. Na Alemanha os irmãos Schegel, Novalis. Na França, Victor Hugo escreve manifestos literários e estéticos. É um fenômeno universal que se repete no simbolismo e nos distintos movimentos do século XX. Na Idade Moderna, cada movimento literário foi precedido ou acompanhado por uma atividade crítica... Diria inclusive que a crítica literária sempre esteve presente na América Latina. Tivemos críticos excelentes: Bello, Henrique Ureña, Reyes. Espanha teve, no século passado, Menéndez Pelayo, um grande crítico, não inferior a Sainte-Beuve. Neste século, Menéndez Pidal, Américo Castro, Dámaso Alonso e outros. O que nos faltou foi a crítica filosófica, moral e política. Não tivemos nada semelhante a Hume, Voltaire ou Rousseau; nem tivemos um Coleridge, isto é, um grande poeta que também fosse um pensador filosófico e um crítico literário. Adotamos as idéias da modernidade européia sem muito discernimento e as aplicamos irrefletidamente à nossa realidade. Para nós a modernidade foi, com freqüência, um traje e, às vezes, uma fantasia... Nesse sentido, podemos dizer que a crítica esteve ausente em nossa cultura hispânica...Em toda análise há sempre algo de criação e de inovação. Ao contrário dos professores e dos críticos profissionais, os escritores que escrevem críitica literária nunca vêem o texto de uma maneira cientifica. Esta foi a grande pretensão de parte da crítica moderna e nessa pretensão reside, a meu ver, seu fracasso. Em nossa relação com a obra literária é primordial, em primeiro lugar, o prazer estético. O essencial é o gosto, não somente no sentido do século XVIII, mas no sentido de deleite, numa gama que vai do agrado à fascinação. A paixão ante o texto: aquele que não ama a literatura não pode nem deve fazer crítica. A crítica é, sobretudo, um ato de amor. Por isso não é uma ciência, é uma arte que se conhece através do amor. Um conhecimento que é, por isso mesmo, uma recriação, uma reinvenção do texto. A crítica é ciência e é arte, é conhecimento e é recriação. Seu fundamento, sua origem, é o prazer. Quando esse prazer se transforma em paixão, nasce a grande crítica que se converte em verdadeira literatura. Alguns grandes escritores modernos foram excelentes críticos. Entre os de língua espanhola lembro três: Antonio Machado, Juan Ramón Jiménez e Jorge Luis Borges. A poética de Machado suporta e merece a comparação com a de um Valery ou um Eliot. No passado, vários grandes poetas foram grandes críticos: Horácio, Dante e tantos outros. Entre os românticos, Coleridge. Sinto-o muito perto de mim, especialmente por suas reflexões em torno das relações entre poesia, religião e filosofia. Na época contemporânea nossos grandes mestres foram os franceses, de Mallarmé e Valery a Breton. O modelo foi Baudelaire, que foi um grande crítico e um grande poeta”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 09/07/1988 – César Salgado

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