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Relações Literárias

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

por Ariano Suassuna

“João Cabral, que por acaso tinha sido expulso do Itamaraty por motivos ideológicos, veio morar aqui na casa do pai dele. Então fizemos amizade nessa época. Eu fiz amizade com João Cabral e nós escrevemos ao mesmo tempo o Auto da compadecida e Morte e vida severina e trocamos experiências. Disse a ele uma frase que quando eu era menino usava no sertão. No sertão, quando você vinha na estrada e encontrava um homem morto, principalmente se ele tinha sido assassinado, a pessoa tinha a obrigação religiosa de ficar ali gritando para outras pessoas virem ajudar no enterro. Gritava-se assim: ‘Chega irmão das almas, não fui eu que matei não’. E quando eu disse a ele, ele se entusiasmou e colocou lá. Ele estava entre as primeiras pessoas que viram o Auto da compadecida... Todo mundo me perguntava porque eu não escrevia como João Cabral. Eu sou muito diferente. João Cabral detestava música e eu não entendo como um poeta pode não gostar de música. Éramos amigos, mas éramos muito diferentes”.

Fonte: Preá – Revista Cultural do Rio Grande do Norte. n. 14, out. 2005 – Gustavo Porpino e Racine Santos.

por Augusto de Campos

"Dos poetas que antecederam a minha geração, aquele com quem eu tenho mais afinidade, aquele que para mim sempre foi o mais importante é o João Cabral, não só pelas características de rigor compositivo da sua obra, como pela sua aversão ao sentimentalismo e à facilidade. O João Cabral desenvolveu ao longo dos anos uma obra extremamente coerente, que para nós, de geração posterior, constituiu uma lição de poesia".

Fonte: FERREIRA, Claudiney; VASCONCELLOS, Jorge (orgs.) Certas Palavras. São Paulo: Estação Liberdade: Secretaria de Estado da Cultura, 1990,

por Carlos Drummond de Andrade

“Não, não (exerci influência sobre ele). Terá sido apenas uma relação de conhecimento entre o João e eu. Ele é meu afilhado de casamento, e quando vinha para o Rio me procurava. A gente tomava café e conversava muito.  A primeira fase do João é muito diferente da definitiva. A primeira é mais frenética, inspirada em Mallarmé, Rimbaud. A definitiva, mais objetiva, direta. É o agreste de Pernambuco, o sertão, os problemas do dia de hoje, que ele considera e trata num estilo muito próprio. Não houve propriamente  influência. Sou mais velho, ele gostava de mim, se interessava pelo que eu escrevia, e eu pelo que ele escrevia. Tanto que um dos meus antigos poemas é dedicado a ele. Um pouquinho à sua maneira, porque quis diverti-lo, agradá-lo”.

Fonte: Folha de São Paulo (Folhetim), 03/06/1984 – Augusto Mais e Lúcia Nagib   

 

por Daniel Piza

"Cabral é capital. Temos grandes pós-românticos como Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa e grandes modernos coloquiais como Drummond e Murilo Mendes. Mas Cabral andou no sentido contrário da língua portuguesa, "mole demais", como ele dizia, e atingiu um rigor que - milagre? - é de uma flexibilidade impressionante. Na prosa, antes de Graciliano Ramos (o Cabral da ficção) havia Machado de Assis, que por sinal influenciou muito mais Graciliano do que normalmente se pensa. Mas na poesia Cabral não tinha de onde partir. Uma façanha. E uma façanha que não deve ser estudada apenas por poetas e artistas em geral: deve ser apreendida por pensadores também. Antonio Candido disse que ainda não se produz pensamento dentro da língua portuguesa, apenas com ela, e estava certíssimo. Cabral mostrou que a língua portuguesa do Brasil não é apenas um sopro melodioso, mas que pode ter carnadura, e ainda assim ter o sopro melodioso".

Fonte: http://www.gargantadaserpente.com/entrevista/danielpiza.shtml

por Décio Piganatari

"Bom, exceto o fato de que ele foi atacado do mal de Alzheimer, acabou de fazer na Veja umas declarações pavorosas na sua declaração de voto, enfim... Nós somos poetas apenas. Ele faz versos; eu normalmente não os faço. Faço uma poesia visual ou faço holografia [imagem em três dimensões] ou tento realizar alguma coisa, hoje, em cristal ou em volumes de vidros com cores... Coisas que a gente vai tentando, mas nisso não há diferença. O Cabral foi um dos grandes poetas brasileiros dos anos 1940 até os anos 1960".

Fonte: Programa Roda Viva, da TV Cultura, 12/11/1989

por Gilberto Mansur

"Entrevistei o João Cabral de Melo Neto muito tempo atrás e, quando ele entrou para a Academia, a gente questionou mesmo. Eu mesmo questionei o João Cabral: por que um poeta como ele, que aparentemente é antiacadêmico – aparentemente não, seria antiacadêmico – estava entrando para a Academia. O que ele esperava da Academia? E ele disse simplesmente o seguinte: “A Academia não vai melhorar nem piorar a minha obra, não vai alterar a minha obra nem para pior nem para melhor. Simplesmente vou estar convivendo com gente que me diz respeito, que tem o ofício que tenho. E quero envelhecer junto com eles."

Fonte: Programa Roda Viva, da TV Cultura, 01/07/1991

por Haroldo de Campos

“Os dois são grandes poetas. A ambos admiro. Mas João Cabral é mais rigoroso, mais radical, jamais deixa a peteca cair; já Drummond, autor de poemas seminais, é, obstante, mais indulgente, mais sentimental, sobretudo quando, em sua poesia, aflora o cronista das amenidades da vida”.

Fonte: Revista e (Senac), n. 10, abr. 2003

 

por Hilda Hilst

“O João Cabral eu acho chato”

 

Fonte: D.O. Leitura (S.Paulo), maio de 2003

por Lêdo Ivo

"Na época, o João Cabral era muito preocupado em fazer uma poesia sob o signo do rigor, da densidade, da contenção. Já a minha poesia era meio caudalosa, de modo que uma vez ele disse que eu era incapaz de escrever um soneto. Aceitei esse desafio e fiz meu primeiro soneto dedicado a ele. Depois fiz uma série de sonetos que ele editou em casa, na época em que ele já era diplomata do Brasil na Espanha. Ele tinha uma prensa manual, porque o médico receitou a ele contra as dores de cabeça essa espécie de laborterapia. Meu livro era O acontecimento do soneto. Ele editou também Drummond, Manuel Bandeira... É. Aliás,  há uma parte desse livro (Correspondência entre Drummond, João Cabral e Manuel Bandeira, publicado pela Nova Fronteira) em que Cabral me trata com certa ironia. Ele envia para Drummond uma antologia e diz que 'Os Lêdos Ivos da Espanha também estão presentes neste volume'. Mas isso é muito engraçado porque, ao mesmo tempo em que ele me ironiza, em 1947 escreve para mim falando mal do Drummond (risos). Um atitude bem dúbia ou ambígua. ele falava mal de mim ao Drummond e mal do Drummond a mim, de modo que me dou por satisfeito".

Fonte MARETTI, Eduardo. Escritores: entrevistas da Revista Submarino. São Paulo: Limiar, 2000.

 

por Manoel de Barros

“O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra,sabe o que faz com ela.Tem o ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo”.

Fonte: Jornal do Brasil, 24/08/1996 –André Luis Barros  

por Murilo Rubião

Quando eu trabalhava em Madrid nos anos cinqüenta, o João Cabral fazia pesquisa em Sevilha para o governo brasileiro no Arquivo das Índias. Num dos Jornais que recebíamos do Brasil contava que o Guimarães Rosa tinha sido candidato à Academia Brasileira de Letras e não tinha conseguido eleger-se. O João Cabral, mostrando-me o jornal, gozava o nosso grande escritor, dizendo que era uma bobagem dele, que a Academia era para o canastrão, o sujeito que não tinha mais nada para contar, o que não era o caso do nosso Guimarães Rosa. João Cabral falava como se entrar na Academia fosse o fim para o escritor. Para se desculpar um pouco, mas com muita ironia, disse que no fundo o Guimarães Rosa era um ingênuo, sem malícia, que entrar para a Academia era uma vaidade tola. Dez anos depois o João Cabral se candidatou também à Academia Brasileira. Não estive com ele após a eleição, mas espero ainda a ocasião para saber se ele está com a obra terminada ou se a Academia serviu para ele de trampolim para ser Embaixador. No Itamaraty, dão muita importância a você ser membro da Academia, e não a ser um bom poeta. Aliás eles não entenderiam os versos do João Cabral. Ou então o nosso poeta achou que a obra poética dele está terminada. O último livro dele, O MUSEU DE TUDO, está muito aquém do primeiro livro e de DUAS ÁGUAS; de MORTE E VIDA SEVERINA e tantos outros".

Fonte: http://www.murilorubiao.com.br/

por Rachel de Queiroz

"Admiro profundamente o Abgar Renault, que é o maior poeta vivo – tirando-se o João – que é hors-concours".

Fonte: Programa Roa Viva, da TV Cultura, 01/07/1991

por Robert Creeley

“Recentemente li uma seleção de poemas de João Cabral de Melo Neto. Achei-o muito bom. Mas lamentei uma coisa. A edição é muito modesta para a estatura dele”.

Fonte: Correio Brasiliense, 14/05/1996 – Dad Squarisi

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